Rock, Memória e Poesia: Uma Conversa Com Fabrício Beck

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Entre pianos, festivais nativistas, rock e versos de Vinícius, ele revela as músicas as histórias e as emoções que moldaram sua trajetória de sucesso.

Nascido em Tupanciretã RS e criado entre sons de piano, o músico, compositor e poeta Fabrício Beck é vocalista de uma das maiores bandas de rock da atualidade a Vera Loca. Pelos palcos ele se desdobra ainda em shows de sua carreira solo acompanhado do Bando Alabama ou simplesmente na voz e violão em shows intimistas pelos bares da noite.

Carregando uma trajetória marcada pela pluralidade. da influência da mãe pianista ao rock argentino, das rodas de violão aos palcos lotados do Brasil, sua história é feita de melodias, persistência e amor pela arte.

Nesta entrevista exclusiva, ele fala sobre as influências que o formaram, os bastidores da carreira, as dificuldades de viver de música e o prazer de transformar vidas através dela.

Como foi teu primeiro contato com a música?

Meu primeiro contato com a música foi ainda na barriga da minha mãe ela deu aulas de piano até poucos dias antes de eu nascer.

Menos de dois meses depois do meu nascimento, ela fez um recital lá na nossa cidade, Tupanciretã, e voltou a dar aulas. Então eu cresci numa casa rodeado de pianos sendo tocados o dia inteiro.

Quais são tuas principais influências musicais?

É difícil dizer, porque eu sou muito eclético desde criança. No comecinho eu adorava as coisas que minha mãe tocava, como Villa-Lobos, Vinícius de Moraes e Tom Jobim.

Eu também frequentei CTGs, então meus cantores favoritos são o César Passarinho e o João de Almeida Neto. Depois veio o rock brasileiro com os Engenheiros do Hawaii, Barão Vermelho e Cazuza, que até hoje é uma grande referência.

Sempre gostei de como o Humberto Gessinger e o Bob Dylan escrevem suas letras — a maneira como narram as histórias é uma grande influência pra mim e pra minha música.

Sou também apaixonado por rock argentino, como Charly García, Gustavo Cerati, Fito Páez e Andrés Calamaro. Mas a minha banda favorita de todas é o Oasis… ah, e os Beatles, né? Mas esses eu nem preciso citar (risos).

Quando tu percebeste que já tinhas uma carreira de músico?

Na verdade, eu comecei muito cedo, eu e o Diego (Diego Dias, tecladista do Vera Loca) nos inscrevíamos em festivais de música nativista, por conta própria, quando éramos crianças ali pelo ensino médio tocando eu já conseguia comprar minhas coisas, como roupas e tal. Aos 16, 17 anos a gente tocava em barzinhos em Santa Maria e eu já pagava minhas contas com a música. Foi então que percebi que aquilo era um trabalho.

Qual é tua música favorita da vida? E por quê?

São tantas, sabe? mas tem uma que é impressionante como mexe comigo: Don’t Go Away, do Oasis. Quando escuto eu lembro de uma fase da minha vida e me transporto pra aquela época. Parece que consigo sentir o cheiro do meu quarto. Lembro perfeitamente do som do meu aparelho de som. É uma viagem, sabe? Parece que eu volto pra Santa Maria, pro meu quarto. Posso estar em qualquer lugar — sempre que ouço essa música, me transporto pra lá.

Qual é a música tua que tu mais gostas? E por quê?

Ah, essa pergunta é a mais difícil. É como ter dois ou três filhos e ter que dizer de qual tu mais gosta. Cada uma vem num momento da vida. Eu nem consigo citar uma só. Mas tem algumas que eu gosto de saber que eu fiz, como Azul, que tá no meu primeiro disco solo.

Palácio dos Enfeites e Cara de Louco, que fiz em parceria com o Mumu da Vera, também.

Mas eu gosto de muitas outras… é difícil (risos).

Qual foi o show mais marcante da tua carreira?

Eu escolho um que foi o mais marcante e um divisor de águas na nossa carreira: a gravação do DVD da Vera Loca no bar Opinião.

Lembro de voltar pra casa depois da passagem de som e ver meus pais lá, nos reunimos na sala e fizemos uma oração. Quando voltei pro bar, tinha um mar de gente que cantou todas as músicas do começo ao fim. No palco, me senti como se estivesse pisando em algodão. Até hoje lembro dessa sensação e desse show.

Foto crédito: Google

Qual foi o pior show que tu já realizaste?

Teve um — não vou citar nomes, nem época, nem com quem — em que fomos contratados pra tocar num casamento. Tínhamos cobrado um bom cachê e era uma produção boa, som, hotel e tudo certinho quando chegamos no lugar, a gente se olhou e pensou: “Por que será que nos contrataram pra tocar aqui?”. Parecia que os noivos não tinham amigos e os convidados eram todas pessoas mais velhas.

Tocávamos e o público olhava desconfiado até que lá pelas tantas a cerimonialista pediu: “Toquem mais rock nacional e internacional.”

A gente explicou que o nosso show era aquele mas o problema não era o repertório — era o público. Nada do que a gente fizesse ia agradar ali.

Aí lembro que tocamos só mais umas duas ou três e… “Volta, DJ!” (risos).

Qual tu achas que é a maior dificuldade da vida de um artista?

Eu vou dizer por mim: acho que é a falta de previsibilidade, a gente vem de dois episódios catastróficos pro nosso meio — a pandemia e as enchentes. Na pandemia, fomos o primeiro setor a parar e o último a voltar.

Nas enchentes, não havia como se locomover. Algumas pessoas ainda conseguiam trabalhar em home office, e claro que eu não quero comparar — até porque tinha muita gente embaixo d’água. A gente entende, tanto que se engajou e conseguiu ajudar um monte de gente do jeito que dava mas a nível profissional… sabe?… às vezes até o tempo atrapalha — se chover, teu trabalho pode ser adiado.

E quando o mercado oscila, o primeiro corte é no setor de eventos essas são grandes barreiras pra quem administra uma carreira, no caso de uma carreira séria, né? (risos)

Qual é a melhor coisa de viver de música?

Eu penso que seja o prazer de levar alegria, ou alguma coisa boa, é poder alegrar as pessoas que de repente saem de casa tristes e chegam no show e mudam tudo.

A melhor parte é saber que nosso trabalho é diariamente levar alegria — não só nos shows mas também nas plataformas, nas rádios. A música — não só a nossa mas a música em si — transforma a vida das pessoas.

Que leitura tu recomendarias para teus filhos?

Legal essa pergunta, sabe que na semana passada eu fui ao shopping com meu filho e ele queria comprar um livro do Capitão Cueca, que ele coleciona. Ele devora aqueles livros em dois dias. Eu entrei numa livraria e perguntei se tinham Meu Pé de Laranja Lima que eu acho uma leitura muito legal e lembro que li quando tinha a idade dele. Eu recomendo esse livro — tanto que comprei um pro meu filho.

Qual filme ou série tu assistirias mais de uma vez?

Bah, são tantas boas hoje em dia…eu assistiria uma que eu tenho certeza de que não teria companhia pra ver novamente aqui em casa: Vikings (risos). Tudo que tem de vikings nos streamings, eu já assisti.

Se tu pudesses ser um personagem ou outra pessoa, quem tu gostarias de ser e por quê?

Pergunta bem difícil essa… ahnn… sabe que quando eu era criança eu costumava brincar com um primo de Toquinho e Vinícius? ele era o Vinícius e eu o Toquinho — porque o Toquinho começou a tocar com o Vinícius ainda garoto. Desde então eu já era alucinado pelas poesias de Vinícius de Moraes, tanto que fiz um poema cujo título é Queria Ser Vinícius.

Então eu queria ser o Vinícius de Moraes, porque além de adorar a obra dele (eu sabia todas as músicas e até as falas dos discos!) ele era um grande escritor, poeta e diplomata que gostava da noite de andar com os amigos e de compor junto. Eu sou assim também — gosto de receber amigos em casa, pegar o violão e botar umas ideias no papel. Eu e o Mumu (baixista da Vera Loca) temos uma parceria muito nesse clima e muitas músicas da banda surgiram assim — como muitas músicas do Vinícius e do Tom Jobim foram feitas.

Que mensagem tu gostarias de pichar num muro?

Eu não gostaria de pichar nenhum muro. Nunca pichei e nunca vou pichar! mas acho que colocaria um cartaz escrito:

“Se for pichar, piche a parede da sua casa.”

O que é essencial pra ti?

Essencial pra mim é amor, parceria, gratidão e saúde mas tendo amor e saúde já é uma grande coisa.

Palácio dos Enfeites (Vera Loca)

Mais um Domingo (Fabrício Beck e Bando Alabama)


Instagram: @fabriciobeck

Edição: Isabel Kurrle.

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