A vida de Jacques Maciel é um turbilhão de emoções, mas não do jeito que muitos pensam. Quando eu trago aqui uma entrevista com o “vocalista do Rosa Tattooada”, as pessoas imaginam que leremos as palavras de um roqueiro estereotipado, falando de rompantes e histórias regadas a noitadas de rock, bebedeira e sexo mas não. Jacques tem sim a imagem do hard rock, mas “é gente como a gente”. Um cara apaixonado pela vida e pela família, com muita atitude, força e, claro, um visual muito mais legal que o da maioria das pessoas.
Depois de 38 anos de carreira, com milhares de shows realizados, centenas de músicas escritas e milhares de quilômetros de estrada percorridos no Brasil e no mundo, Jacques nos brinda aqui com um pouco de sua intimidade e de suas reflexões sobre a vida.
Das apresentações intimistas ao som de voz e violão aos megashows ao lado dos maiores artistas do rock mundial, Jacques transformou vocação e estilo em profissão. A simplicidade com que faz o seu trabalho contrasta com a potência de seu talento e talvez seja justamente essa simbiose a maior lição que podemos aprender com este jovem senhor do rock gaúcho.
Confere comigo um pouco do que estou falando.

Qual teu primeiro contato com música?
Meu primeiro contato com a música foi aos 5 anos, através dos meus irmãos. No caso, com o rock, né? Peter Frampton, Sweet, Heart… Depois veio a disco music, mas em 1975, 76, com meu irmão mais velho, foi o Frampton mesmo.
Quais tuas principais influências?
Na realidade é uma mistura de coisas, né? Escutei muita bossa nova por causa dos meus irmãos, disco music, Jovem Guarda… uma “misturança” de coisas. Mas ali por 1980, quando eu conheci o Kiss, aí realmente eu enveredei para o universo do hard rock e para os dinossauros dos anos 70. Depois veio aquele boom do glam rock da primeira metade dos anos 80.
Quando tu percebeste que tinhas uma carreira de músico?
O Rosa Tattooada começou muito descompromissadamente, embora eu já tivesse um sonho de garoto de ter uma banda de rock. Mas foi realmente quando os shows engrenaram e a gente gravou as primeiras demos, e começaram a pintar datas para tocar, que eu tive a percepção de que estava nesse universo da estrada e do rock.
Qual tua música favorita da vida? E por quê?
Isso, pra mim, aos 57 anos, com 38 de estrada e toda a vivência… seria impossível citar uma música da vida. Seriam dezenas (risos).
Qual tua música favorita feita por ti? E por quê?
Os nossos discos e as nossas músicas eu acho que a gente tem como filhos, e é difícil ter predileção por um ou por outro. O Rosa Tattooada tem uma obra com bastante coisa, mas eu tenho um carinho especial por algumas músicas que eu compus sozinho, letra e música, como Na Estrada, Carburador, Um Milhão de Flores… embora sejam tantas que a gente guarda no coração.
Qual o show mais marcante da tua carreira?
O Rosa Tattooada teve muitas experiências legais e oportunidades maravilhosas nessa trajetória. A gente pôde abrir shows internacionais do Guns N’ Roses, Kiss, Alice Cooper, Deep Purple, e tantas outras experiências pelo interior e fora do Estado. Mas eu citaria dois que guardo com muito carinho.
Um é o show no Teatro da OSPA, em 1992, que foi uma superprodução e a banda estava estourando.
Outro é a abertura do Kiss em 2012, no Gigantinho, onde eu pude realizar um sonho de garoto e abrir pra minha banda do coração. Tivemos um tratamento excepcional, tanto dos músicos quanto da equipe do Kiss, e foi algo incrível, fantástico!
Qual o pior show que já realizaste?
Em 38 anos de estrada, a gente vive altos e baixos, passa muitos perrengues, encara indiadas, bares vazios, uma encrenca aqui e outra ali. Mas um perrengue mais ou menos recente, que o pessoal lembra bastante e que eu guardo com carinho também foi a abertura do show conturbado do Guns N’ Roses na FIERGS, acho que em 2009. Aquele show cheio de atrasos, cheio de problemas, onde os shows do Tequila Baby e do Rosa Tattooada foram cancelados, e depois o Rosa acabou tocando só três músicas, abaixo de vaias e com o pessoal muito indignado com toda a situação… os atrasos… Mas é algo que eu guardo com carinho também (risos).
Qual a maior dificuldade da vida de músico?
Eu acho que a maior dificuldade é achar o equilíbrio de encarar essa rotina e esse estilo de vida com leveza e sem ansiedade e ao mesmo tempo com o compromisso de se sustentar, pagar as contas e prover pra família só tocando. O desafio é esse: achar o equilíbrio entre a sanidade e a leveza da profissão que a gente escolheu, e ao mesmo tempo ter esse compromisso de trazer o retorno para casa e para a família.
Qual a melhor coisa de viver de música?
Sem dúvida nenhuma é a recompensa de fazer o que se gosta. Não só na música, mas em qualquer profissão. É ter a glória e a bênção de viver do que se ama, estar na estrada se divertindo e entretendo as pessoas num momento de magia. Aquele momento em que elas estão no show, na frente do palco, e podem esquecer um pouco dos problemas isso, pra mim, é a maior satisfação.
Que leitura tu recomendarias para teus filhos?
Eu ainda sou de uma geração que leu bastante, né? (risos). Eu li muitos livros de aventura na adolescência. Li bastante coisa referente à estrada e aos escritores “outsiders”. Depois, li muito Charles Bukowski e, atualmente, nos tempos raros que tenho para leitura, tenho curtido muito as biografias, principalmente as de rock. Acho que seria essa a sequência que eu recomendaria para meu filho.
Que filme ou série tu assistirias mais de uma vez?
Eu já assisti bastante coisa em outros tempos, mas hoje quase não tenho tempo de ver TV por causa do meu filho pequeno. Confesso que não tenho o hábito das séries acho uma coisa sem fim (risos) mas tem alguns filmes que vi bastante quando criança, como A Fantástica Fábrica de Chocolates, que me deixava fascinado. Depois, Um Drink no Inferno, do Tarantino, que eu vi umas 8 ou 10 vezes, e isso já faz mais de vinte anos. Ultimamente, curti bastante os filmes do Rob Zombie A Casa dos Mil Corpos e depois, Rejeitados pelo Diabo. Eu me diverti bastante e vi várias vezes.
Qual tu achas que é o papel do artista na sociedade?
Eu vejo que são vários caminhos e várias vertentes. Alguns levam para um lado mais político, outros mais para o entretenimento. Como bom fã do Kiss e de hard rock, eu sempre encarei a música como forma de levar diversão e ilusão para as pessoas. Como comentei antes, acho que aqueles momentos em que as pessoas pagam ingresso para ir ao show são momentos em que elas querem realmente esquecer da realidade, das rotinas, dívidas, preocupações e problemas. Eu vejo a arte como uma forma de fantasia e ilusão, um jeito de se divertir e fugir um pouco do peso do dia a dia.
Se tu pudesses ser um personagem ou outra pessoa, quem tu gostarias de ser e por quê?
Eu tenho vários ídolos e vários personagens que admiro demais. Mas tem uma figura dos desenhos animados pela qual eu sempre fui apaixonado desde criancinha e que acho incrível: a Pantera Cor-de-Rosa (risos). Por ela ser aquela coisa cool, com aquele charme todo, capaz de transmitir um monte de coisas sem precisar dizer uma palavra. Eu ficava impressionado e enlouquecido com os desenhos da Pantera Cor-de-Rosa.
Que mensagem tu picharias num muro?
“Curta a vida porque a vida é curta!” (risos)

O que é essencial pra ti?
Essencial para mim é continuar fazendo o que gosto com saúde. Ver minha família minha mulher e meu filho com saúde e bem e poder estar com eles. E ao mesmo tempo poder estar na estrada tocando e fazendo o que amo. É viver com saúde e alegria. É isso aí!
Um Milhão de Flores – Rosa Tattooada
Edição e revisão: Isabel Kurrle