Caro leitor,se esta fosse a minha última crônica, eu não saberia exatamente como me despedir.
Então talvez eu prefira contar uma história…
Era uma vez um menino que foi deixado por um circo na frente da casa de madeira mais velha da cidade.
Era uma casa cheia de frutas diferentes, ali, adotaram aquele menino.Fizeram para ele uma casa na árvore, deram roupas, tecidos, carretéis, linhas. Ele colecionava tampinhas, inventava brinquedos, fingia ter cabelos compridos, andava de balanço, tinha muitas amigas e um quarto secreto.
Naquele quarto havia alguns palhaços.Palhaços que o menino nunca conseguia pegar, ele cresceu, foi estudar. Aprendeu a fazer perguntas, gostava de natureza, de arte, de correr, de inventar histórias e de fazer amigos.
Foi vivendo, crescendo e encontrou um caminho depois outro… acertou.
Acertou tanto que a vida começou a lhe dar presentes e ele recebeu tantos presentes que em algum momento, esqueceu por que os havia recebido.
Então perdeu, perdeu quase tudo e foi nesse momento que encontrou seus monstros.Eles sempre estiveram ali, quietos porque durante muito tempo não havia espaço para eles.
Até que cresceram tanto dentro dele que um dia decidiram sair todos de uma vez.Foi preciso lutar, aprender a trabalhar e aprender a sobreviver.
Fazer aquilo que amava e ao mesmo tempo, aquilo que pudesse pagar as contas.E foi justamente quando já não conseguia fazer tudo sozinho que começou a compreender uma coisa que talvez tivesse levado a vida inteira para aprender:ele era muito rico.

Só que a riqueza não tinha nada a ver com dinheiro, era outra coisa…foi ter aprendido, a criar, e lembrar.
Era ainda conseguir sentir, ter histórias para contar, ter pessoas que mesmo depois de partir, continuavam existindo dentro dele.
Era ter visto lugares que nunca imaginou conhecer, sobre ter amado e ter perdido e ter começado de novo.
Talvez a vida seja essa disputa permanente entre a luz e a sombra.E talvez nenhuma das duas possa existir completamente sem a outra.
Por isso, caro leitor, se eu tivesse apenas hoje para lhe deixar alguma coisa, eu não deixaria uma fórmula para ser feliz.
Deixaria perguntas…o que você veio fazer aqui?
O que você realmente gosta nesta vida?
O que ainda quer experimentar antes que o tempo acabe?
Que história ainda quer contar?
A vida não tem roteiro e talvez essa seja uma das maiores liberdades que recebemos.
Você pode pensar por si mesmo, pode criar coisas que não seguem padrão nenhum.Pode ser estranho,mudar de ideia, começar tarde ou escolher um caminho que ninguém entende.
De tudo que vi na vida, algumas das coisas mais extraordinárias vieram justamente das pessoas que o mundo chamou de loucas.
E as coisas mais loucas nem sempre são as mais caras.Os momentos que mais nos transformam, muitas vezes, não custam nada, uma conversa, uma música ou um abraço.
Uma estrada, um pôr do sol, uma fruta tirada do pé, um animal dormindo perto de você.Uma pessoa dizendo seu nome de um jeito que ninguém mais diz.
Há sensações que têm cheiro, algumas têm endereço, outras têm um CEP inteiro dentro da memória.

E existem lugares aos quais nunca mais poderemos voltar, porque algumas pessoas que existiam neles já não estão mais lá.
Mesmo assim, fomos ricos, fomos muito ricos.Se você quiser fazer sucesso, lute! Mas quando o sucesso chegar, aprenda a reconhecer quem ama você e quem ama aquilo que o seu sucesso pode oferecer.
Quando fracassar, não tenha medo da solidão.Ela pode ensinar coisas que nenhuma multidão ensina.Você vai descobrir o valor de algumas pessoas justamente quando não tiver mais nada para oferecer.Vai descobrir também que nem todo mundo que você ama permanecerá.Algumas pessoas vão tentar destruir você, talvez em algum momento, você também tente destruir alguém.
E talvez nem saiba explicar completamente o por quê.
Somos humanos, temos sombras e contradições.Temos dias em que somos melhores do que imaginávamos e outros em que não reconhecemos a nós mesmos.
Não se assuste tanto com isso.Às vezes, de dentro de uma situação dramática nasce alguma coisa extraordinária.Tudo depende do que fazemos depois que o caos chega.
Aprendi a lutar, não acho que tenha escolhido a luta, talvez eu tenha nascido com ela grudada no corpo mas depois de tantos anos, descobri que lutar não precisa significar passar a vida inteira em guerra.
Às vezes lutar é simplesmente continuar criando, continuar amando,continuar aprendendo e acreditando que existe alguma coisa depois daquele dia horrível.
E aprendi outra coisa:o mais forte nem sempre é quem vence.Às vezes é quem consegue esquecer primeiro.
Esquecer o que precisava ser esquecido, deixar para trás aquilo que já não serve.
Perdoar sem precisar voltar, ir embora sem precisar destruir a casa antes de sair.A gente passa tanto tempo tentando colocar a vida em ordem que esquece uma coisa curiosa:às vezes, o caos também cria.
Há sementes que só aparecem depois que alguma coisa quebra.Há caminhos que só existem porque o anterior desapareceu.
Há versões nossas que só conseguem nascer depois que uma antiga deixa de existir.
Então, caro leitor, se esta realmente fosse minha última crônica, eu não pediria que você lembrasse de mim.Eu pediria que você se lembrasse de você, do menino que você foi..daquilo que gostava antes de aprender a ter vergonha.

Das coisas que fazia antes de alguém dizer que não serviam para nada.Dos sonhos que você deixou em algum quarto secreto.
Talvez ainda exista um palhaço lá dentro, talvez ainda existam muitos e talvez eles continuem impossíveis de pegar.
Ainda bem pois viver seja justamente isso:passar a vida tentando alcançar aquilo que existe dentro da gente e nunca deixar que tudo seja completamente capturado.
Enquanto houver tempo, experimente, enquanto houver olhos, olhe.Enquanto houver corpo, sinta.Enquanto houver alguém para amar, ame.E enquanto houver alguma coisa dentro de você querendo nascer,não tenha medo de deixar nascer.
Porque no fim, talvez ninguém consiga explicar por que veio a esta vida mas talvez a resposta esteja escondida naquilo que você faria mesmo que ninguém estivesse olhando.
Texto: Cassiano Pellenz
Fotos: Google