A esperança tem trilha sonora

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Tem dias em que a gente sente tudo ao mesmo tempo. Uma mistura de cansaço, tristeza,  às vezes por razões quaisquer, as vezes por razões fortes, mas uma constante na gente é a esperança. Essa semana, à noite, coloquei o Álbum Branco dos Beatles para tocar. Lá pelas tantas, começou Blackbird. E eu parei. Só parei. A delicadeza daquele violão, a voz do Paul quase sussurrando e aquele verso que me pegou de jeito: “Take these broken wings and learn to fly”. Blackbird não foi escrita à toa. Paul compôs pensando nas mulheres negras que lutavam pelos direitos civis nos Estados Unidos, no fim da década de 60. A canção virou um hino dos direitos humanos. Mesmo na dor, ele apresentou esperança.

E é aí que mora um mistério muito fascinante da nossa espécie: a esperança tá na gênese do ser humano. A música, talvez mais do que qualquer outra forma de arte, é a encarnação dessa esperança ancestral. Quando tudo falha, ainda nos resta uma canção. Bob Dylan escreveu que “the answer is blowin’ in the wind”. Gonzaguinha nos lembrou que “o homem também chora”, mas segue, porque crê que vão melhorar, porque sim.

A realidade é que a vida é muito dura, difícil de aguentar às vezes. Vivemos um mundo cada vez mais difícil, com intolerância ao diferente, às vezes perseguição mesmo. E mesmo que nenhum prognóstico mais sensato nos aponte que nós vamos melhorar, a gente tem esperança. Esperança quando alguém faz o bem, quando ainda vê gente que não escolhe o caminho mais fácil, mas o caminho correto, gente que acolhe o diferente com amor, e não com ódio. O bem dá sinais de vida.

E a música é um desses sinais. Talvez o mais antigo. O mais instintivo. Ela é a linguagem mais universal existente. A esperança está na música romântica que une duas pessoas. Está no gospel que sobe nas igrejas, apontando para um céu que talvez a gente não veja, mas em que escolhe crer. Está na música regional que resistiu. No rap que denuncia. Na canção de ninar que acalma. Na guitarra distorcida que explode a nossa angústia e berra a nossa liberdade. Cada música é, no fundo, um lembrete de que estamos vivos. E de que ainda há algo a ser dito pela gente. Mesmo quando as coisas estão muito ruins.

A música não é a solução dos nossos problemas, mais as vezes é um remédio, e pode ser até a cura pra nós mesmos. Ela quando nós nos afastamos de nós mesmos, ajuda a lembrar quem a gente é, por quem a gente já passou, as boas e as más decisões, porque tudo teve trilha sonora. Somos gente que caiu, chorou, ficou em silêncio, mas levantou. A esperança tá na gênese do ser humano. E a música é um grito super honesto disso. Não existe música perfeita, mas a música é um grito perfeito das nossas dores, dos nossos amores, dos nossos significados, das nossas loucuras.

No fim, a música é a eterna lembrança de que, quando as coisas ficam escuras, não podemos esquecer de acender a luz, porque até nos momentos mais sombrios, sempre há uma luz esperando para entrar, se permitirmos.

Bob Dylan, 1960s.

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