Conheci Chico em 2011, num show que produzi da querida Julia Vargas, no Zozô, no Morro da Urca. Ele tinha 16 anos e fez uma participação simples, intensa e cheia de uma luz que não pedia licença. Estava acompanhado de Maria Eugênia, sua mãe, aquela que sempre foi porto e presença. E eu tive a certeza: estava diante de um artista que, mais cedo ou mais tarde, o mundo também veria.
Desde então, segui acompanhando Chico pela Zarapatéu, por parcerias potentes, por discos, por vídeos ao vivo que rodavam entre nós como pequenos tesouros. E por isso não me surpreendi com sua força no Altas Horas, cantando “Menino Bonito” da Rita Lee. Aquela performance não foi uma revelação, foi confirmação.
Chico sempre teve esse brilho discreto, esse corpo que canta junto com a voz, essa entrega que mistura timidez com urgência. Cada gesto dele parece prolongar a melodia. Um leve inclinar de ombro, um olhar por trás dos cabelos, um silêncio entre as notas. Ele canta com o corpo todo. Com o gesto, com o jeito. Com o que é. E isso basta.
Francisco Ribeiro Eller ou Chicão, é filho de gigantes, mas planta seus próprios pés no chão. Não se escora em herança. Ele cria, reinventa, emociona.
Fiquei especialmente tocada com a versão da música Árvore, de Edson Gomes, que ele gravou com Francisco Gil. Como fã de reggae e de sutilezas, me arrepiou o encontro entre força e suavidade, entre resistência e poesia. Chico tem isso: um dom de revisitar sem copiar, de renovar sem perder a alma.
Em 2020, lançou o disco “Onde?”, com Francisco Gil. Em 2021, veio o solo “Pomares”, que rendeu indicação ao Grammy Latino. Mas o que mais importa mais que os prêmios é a constância afetiva do que ele faz. Tem parceria comNando Reis, Ana Cañas, Pedro Luís, Tetê Espíndola. Tem show com cheiro de abraço. Tem raiz. E tem voo.
É incrível ver esse menino bonito se expandir, crescer, tomar espaço. Mas eu já sabia. Sabia desde o Morro da Urca. Desde o microfone dividido com Julia. Desde o primeiro olhar que captava mais do que mostrava.
Ele não chegou agora. Ele só está sendo visto com a nitidez que sempre mereceu.
A década tem voz. E ela canta com o corpo inteiro.
Para quem ainda não mergulhou nesse som, deixo o convite: ouça, veja, sinta.
Onde? – Chico Chico e Francisco Gil (2020): https://open.spotify.com/album/3XCMiqFhddht2KH6cUk8Tn
Pomares – Chico Chico (2021): https://open.spotify.com/album/5uxTwMceBwP3Q6zKvWzKyM
Ao vivo – Menino Bonito (BH): https://www.instagram.com/reel/CwzcbQONFjR
Participação no Altas Horas: https://globoplay.globo.com/v/12023397/

