Há uma contradição dolorosa na nossa sociedade: vivemos em um tempo em que se fala muito sobre igualdade, respeito, diversidade, liberdade e direitos, mas os números da violência contra a mulher seguem assustadores. E o mais triste de constatar é reconhecer que, quase que invariavelmente, esses números têm um rosto: o rosto de homens. Homens que não aprenderam a amar, ou que confundem amor com posse.
Escrevo como homem. Porque, afinal, sou um. E esse texto é dirigido a outros homens, meus pares. Aqui a ideia não é apontar o dedo ou dar lição de moral, é olhar para dentro, porque tenho certeza de que você já pensou sobre isso, assim como eu. Até porque, também, cabe a nós mudarmos o ciclo, deixarmos o machismo de lado. Só nós podemos revisar a maneira como fomos educados pela sociedade.
Vamos a exemplos com os quais você certamente vai se identificar. Outro dia, em uma roda de conversa, um amigo começou a criticar o feminismo e disse que, no fundo, feminismo era igual ao machismo, só que do outro lado. Aquilo me incomodou. Respondi que não, que não há equivalência possível. O que deveria ser óbvio: feminismo é um movimento, machismo é um preconceito. Enquanto o machismo oprime, o feminismo liberta. E o sujeito refletiu sobre o que eu disse, e tenho certeza de que não vai esquecer. Mas também tenho certeza de que você já ouviu essa comparação feita por algum amigo seu. Crie coragem para contradizer.
Outra situação recente: em uma formulação de um trabalho na faculdade, percebi que a fala de uma colega foi interrompida três vezes antes que conseguisse concluir o raciocínio. Eu mesmo já fiz isso sem perceber, incontáveis vezes, tomado pela pressa de expor minha opinião. Depois do trabalho, me peguei pensando: quantas vezes nós, homens, fazemos isso? Nos colocamos como donos da palavra e silenciamos, ainda que de forma sutil, as mulheres à nossa volta? Note: não é lição de moral. Eu já fiz isso muito, faço, e mesmo lutando contra, tenho certeza de que acabarei fazendo mais algumas vezes. As mulheres hoje votam, têm direito a trabalhar e tantas outras conquistas feitas à base de muita luta, mas diariamente nós cometemos esses erros contra elas.
E aqui deixo uma pergunta: em quantas mulheres você se espelha? Quantas referências femininas moldaram a sua maneira de ver a vida, de tomar decisões, de ser quem você é? E, indo além, em quantas mulheres você se espelha na sua profissão? Na infinita maioria dos casos, a gente hiperfoca as nossas inspirações nos nossos pares, sendo que, na maioria das profissões, temos um longo histórico de mulheres fortes para também nos inspirarmos. As nossas listas são curtas não porque não há mulheres o suficiente, mas porque temos dificuldade mesmo.
Vivemos uma sociedade masculina, que se orgulha bastante de si mesma, e a maioria repete bravamente que gosta MUITO de mulher. Mas será que gosta mesmo? Será que você consegue ver as mulheres para além do objeto de desejo e amá-las de VERDADE? Amar as mulheres não significa olhar para elas como esposas, mães ou filhas. É, na verdade, olhar para elas como elas são: pessoas fortes, bem-sucedidas e, principalmente, com liberdade. É não tolerar pequenas violências, as que parecem só uma palavra atravessada, o controle disfarçado de cuidado, a piada “inofensiva”.
Esse texto não é um convite à militância, é um convite para fazermos uma revolução particular, para olharmos dentro de nós e ver que podemos ser diferentes, que não precisamos ficar presos a conceitos errados do passado e que podemos amar as mulheres de verdade, do jeito que elas merecem: sem poder, sem amarras, sem posse, mas com admiração, inspiração e uma vontade de ser parceiro.

Escolha uma mulher para se inspirar, uma amiga para admirar, e você vai ver que, em última instância, até você vai viver melhor. Quem sabe um dia a gente viva em uma sociedade em que os homens amem as mulheres. Enquanto isso, vamos começar pela gente.