A vida também floresce depois das tempestades

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Entre maternidade, luto, abandono e recomeços, a história de uma mulher que descobriu que, às vezes, o maior livramento chega disfarçado de perda.”Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam.” — Clarice Lispector.

Existe uma mulher em mim que nasceu tarde.
Ela não nasceu quando eu me apaixonei pela primeira vez.
Nem quando atravessei o país por amor.
Nem quando me tornei mãe.
Ela nasceu no esgotamento.

Nasceu no dia em que me vi sozinha com dois filhos pequenos um de cinco anos e outro de dois tentando manter uma casa de pé enquanto tudo dentro de mim desmoronava.

Nasceu quando eu me olhei no espelho e já não sabia mais quem eu era.
Eu era a mãe de pijama o dia inteiro.
A mãe cansada.
A mãe sobrecarregada.
A mãe que ainda chorava o luto da própria mãe.
Eu era uma mulher tentando sobreviver ao fim da pandemia, ao peso da maternidade e à perda de identidade que tantas de nós vivemos em silêncio.

Mas no meio de tudo isso, eu também era a mulher que ainda amava.
Conheci o pai dos meus filhos quando ainda éramos jovens demais para entender o tamanho das escolhas que fazemos por amor.

Ele tinha 19 anos. Eu, 23.
Eu morava no Rio de Janeiro. Ele, no Rio Grande do Sul.
Foi amor à primeira vista desses que mudam a rota de uma vida inteira.
E eu mudei.
Mudei de cidade.
Mudei de história.
Mudei de vida.
Voltei para o Sul para viver aquele amor.
No início era bonito.

Ele era músico e eu estava em todos os shows, virando noites, sendo parceira, sendo presença. Era o tipo de amor que parece maior do que tudo.

Mas o tempo tem uma forma muito honesta de revelar as coisas.

O amor permaneceu em algum lugar mas a relação foi ficando pesada, confusa, por vezes tóxica.

Foto crédito: Freepik

Entre desencontros e tentativas, fomos escrevendo 17 anos de história.
Há três anos veio a primeira separação.
Meu filho mais novo tinha dois anos. O mais velho, cinco.

Eu me vi acuada, sem identidade, sem autoestima, sem amor próprio. Já não sabia mais onde terminava a mãe e onde começava a mulher.

Enquanto eu juntava meus pedaços, ele seguiu.
Refez caminhos.
Dividiu outras camas.
E mesmo assim eu perdoei.
Perdoei porque ainda amava.
Perdoei porque acreditava na família que construímos.
Perdoei porque queria poupar meus filhos da dor de ver um lar desmoronar.

Mas existe um momento em que a gente percebe que só uma pessoa está lutando para manter a casa de pé.

Os anos passaram e nada mudou.
Ele continuava valorizando mais o tempo fora de casa do que dentro dela.
E eu fui ficando cada vez mais sozinha.
Primeiro com um filho.
Depois com dois.
E sem a minha mãe.
Até que o desgaste emocional me obrigou a fazer o que eu já não tinha forças para adiar: colocar um ponto final mais uma vez.

E quem já passou por isso sabe que terminar não significa que a dor termina.
Às vezes ela apenas muda de forma.
Eu fiquei com a responsabilidade de sustentar duas casas:
a de fora contas, rotina, filhos
e a de dentro, dignidade, sanidade, coração.

E mesmo separada, em algum lugar inconsciente dentro de mim, eu ainda esperava que ele voltasse diferente.
Que a dor da perda transformasse.
No meio desse processo, eu me permiti algo que nunca tinha permitido antes: ser bem tratada. Mesmo à distância. Mesmo sem presença física.

Era a mulher ferida precisando ser lembrada de que ainda existia ali.
De que ainda podia ser desejada.
Elogiada.
Cuidada.
Enquanto isso, ele seguia em silêncio.
Até que um dia a cortina finalmente se abriu.
E o que apareceu não foi uma nova história foi um espetáculo inteiro armado.
E a palhaça era eu.
Ele já estava vivendo com outra mulher. Dormindo em outra cama.
E quase todo mundo sabia.

Menos eu.
O chão abriu.
Porque o que mais dói não é apenas a atitude de quem você amou.
É perceber quantas pessoas ao redor assistiram você afundar em silêncio.
Eu não fui traída no sentido literal da palavra. Nós já não estávamos mais juntos.
Mas fui traída pela omissão.
Pelo silêncio.
Pela falsa consideração.

E também pensei muito na outra mulher.
Não com ódio.
Mas com uma pergunta que talvez só outra mulher entenda.
Como alguém entra na história de um homem recém separado de uma relação de quase duas décadas… e acredita que está entrando em um espaço vazio?
Dezessete anos não são dezessete meses.
Uma vida não se apaga de um dia para o outro.
Talvez eu seja antiquada.
Talvez eu ainda acredite que algumas histórias merecem respeito no tempo da cicatrização.
Mulheres extraordinárias já viveram amores difíceis e sobreviveram a eles.

Frida Kahlo transformou suas dores conjugais em arte.
Simone de Beauvoir escreveu sobre liberdade feminina em um mundo que insistia em limitar as mulheres.
E Leila Diniz teve a coragem de viver sua verdade em uma época em que as mulheres eram julgadas por simplesmente existir.

Foto: Leila Diniz – Crédito: Google

Nenhuma delas foi perfeita.
Mas todas foram suficientemente livres para transformar dor em consciência.
E talvez seja isso que esteja nascendo em mim agora.
A mulher que finalmente entendeu que amor sem parceria vira solidão.
Que perdão sem mudança vira repetição.
E que é muito mais fácil começar de novo do que ter coragem de recomeçar de verdade.

Ele escolheu começar de novo.
Eu escolhi outra coisa,eu escolhi nascer.

Nascer como uma mulher inteira, mesmo com cicatrizes.
Mesmo sabendo que sempre existirá um rastro dessa história afinal, temos filhos.
Mas hoje eu sei de uma coisa que antes eu não sabia:
Às vezes o maior livramento vem disfarçado de abandono.
E eu agradeço profundamente às mulheres que me lembraram do meu tamanho quando eu já tinha esquecido dele.

No mês das mulheres, esse texto não é apenas um desabafo.
É um lembrete.
Para as que estão onde eu estive:
você não está fraca.
Você está sobrevivendo!

Foto: Frida Kahlo – Crédito: Google

E para as mulheres que entram na história de homens recém separados, deixo uma reflexão, de mulher para mulher:
Antes de ocupar um espaço, pergunte-se se aquela história realmente terminou.
Ou se você está apenas entrando no meio de uma ferida que ainda sangra.
Porque começar é fácil.
Difícil é ter coragem de reconstruir aquilo que um dia prometemos cuidar.

Edição: Isabel Kurrle

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