Nos últimos anos, eu me peguei repetindo uma frase comum entre mães:
“Quando der, eu volto.”
Volto para o trabalho, para os projetos, para a vaidade, para meus desejos mais silenciosos.Volto para mim.
Mas a verdade é que nunca “dava”.
Quando o Martin nasceu, aos 35, eu fui tomada por um amor gigante e logo depois, pela ausência da minha mãe.
Perder a minha mãe tão perto de me tornar mãe me desestabilizou de um jeito que ninguém prepara a gente.
É estranho descobrir a maternidade enquanto perde a referência que te moldou.
Eu dava colo enquanto queria colo.
Aprendia enquanto ainda precisava aprender com ela.
E isso mexeu comigo por muito tempo.
Depois veio o Caetano, a pandemia, e a vida entrou naquele modo automático que as mães conhecem bem. Eu me vi pulando etapas minhas, colocando tudo e todos na frente, até perceber que eu tinha me esquecido no meio do caminho.
Hoje, com Martin de 8 e Caetano de 4, admito com clareza:
eu me deixei por último por tempo demais.
E agora, estou voltando!
Sem pressa, sem culpa mas com firmeza.
E parte desse retorno ganhou um novo capítulo recentemente: voltei a trabalhar fora de casa, em turno integral. Uma mudança que exigiu de mim algo que muitas mulheres conhecem bem criar uma rede de apoio remunerada para que a rotina simplesmente funcionasse.

Não romantizo isso: é um esforço emocional, financeiro, organizacional. É aceitar que eu não dou conta de tudo, que ninguém dá, e que pedir e pagar por ajuda também faz parte da maternidade real.
Hoje mesmo, enquanto escrevia esta coluna véspera de feriado me peguei no meio do trabalho pensando: “E amanhã? O que eu vou fazer com as crianças se eu vou trabalhar e eles não têm aula?”
Antes que eu pedisse, antes que eu respirasse fundo tentando achar uma solução, a rede de mães que me cerca, silenciosa e poderosa, apareceu. Uma mensagem. Uma oferta. Um “deixa comigo”.
E eu chorei de novo mas dessa vez de alívio, de gratidão, de me sentir acolhida.
É um choro que aquece.
Esse processo de reencontro não é só meu.
Ele ecoa na vida de muitas mulheres que observo diariamente.
Tem as mães da internet que nos salvam sem saber:
Carol Peluffo com sua maternidade real que faz a gente respirar aliviada.
Mãe Fora da Caixa, que coloca em palavras sentimentos que a gente mal admite.
PsiMama, que fala de saúde mental materna com base e acolhimento.
E Déborah Suasserig, que é um farol para mães atípicas.
A maternidade atípica não segue manual nenhum e as mães que a vivem carregam uma força silenciosa, feita de rotinas terapêuticas, acessos, crises sensoriais, adaptações, diagnósticos, medo do futuro e vitórias que só elas entendem.
A fala da Déborah abre espaço para isso.
Ela dá nome, dá cor, dá realidade.
E faz tantas mães que vivem o “não previsto” se sentirem vistas.
Eu aprendo muito ali sobre empatia, sobre presença, sobre como redes de apoio começam quando alguém decide simplesmente contar a verdade.
Foi nesse mesmo espírito de verdade que me sentei para conversar com minha amiga Karen Júlia, atriz e mãe da pequena Pérola, que interpreta Paloma em Arcanjo Renegado.

Ela está vivendo o retorno ao trabalho, aquele retorno que mistura cansaço, medo, orgulho e identidade.
E ouvindo ela, eu me reconheci em tantas partes, como muitas mães vão se reconhecer.
Eu sigo nesse retorno.
Ainda tateando, ajustando, errando, acertando, pedindo ajuda.
Ainda sentindo falta da minha mãe em momentos que só ela entenderia.
Ainda aprendendo com mães atípicas sobre mundos que antes eu não enxergava.
“Ainda me inspirando em mulheres que têm coragem de viver suas próprias verdades” – Amanda Carvalho.
Se você também estiver nesse processo de voltar, recomeçar, se descobrir, se permitir saiba que existe espaço.
E que você não está sozinha.
Porque no fundo, todas nós estamos fazendo o mesmo movimento:
voltando para nós mesmas, um pedacinho por dia.

Entrevista
1- Karen, sua filha ainda é um bebê e você já está de volta ao set. Como tem sido esse processo de retorno ao trabalho? O que mudou em você como atriz e como mulher desde que se tornou mãe?
Foi muito desafiador e ao mesmo tempo profundamente transformador. Voltar ao set com a Pérola tão pequena me colocou em contato com uma força que eu desconhecia. Como mulher, me sinto mais inteira, mais ciente dos meus limites e potências. Como atriz, acho que estou mais conectada à verdade, à escuta, ao tempo das emoções. Ser mãe reorganizou tudo inclusive minha forma de estar em cena. Além de estar protagonizando meu primeiro filme, eu também estava gravando Arcanjo Renegado 5ª temporada nas folgas. Foi uma loucura maravilhosa. Sempre sonhei em estar em muitos trabalhos ao mesmo tempo, ter grandes oportunidades de viver inúmeras personagens. E realizei tudo isso com minha filha do lado, inclusive já estrelando também como artista de cinema…tem coisa mais linda!
2 – Muitas mães falam sobre o medo e a culpa de deixar o filho para voltar à rotina profissional. Você também sentiu isso? Como lida com essa mistura de emoções?
Sim, a culpa bate. Mas ela vem junto com o amor, com a responsabilidade, com o desejo de ser exemplo. Muitas vezes, depois de estar 12 horas no set e algumas horas longe dela, eu sentia muita culpa. Eu chegava, ela já estava dormindo, eu abraçava ela e chorava copiosamente uns 10 minutos. O fato de estar protagonizando um filme era a realização de um sonho e é isso que eu quero que ela saiba:
Filha, sua mãe estava realizando sonhos! Isso fazia me sentir menos culpada.
Estar bem comigo mesma, realizar meu trabalho, também é uma forma de cuidar da minha filha. A gente não se divide, a gente se expande, é nisso que acredito.
3- A gente sabe que o set pode ser um ambiente intenso, com longas horas e muita entrega. Como é levar a Pérola para o trabalho? Existe acolhimento da equipe?
Levar a Pérola foi uma aventura. Eu tive a sorte de trabalhar com uma equipe majoritariamente de mulheres e principalmente mães. Nossa diretora, Ninna Fachinello é mãe e super protegeu a minha filha. Se a Pérola tivesse dormindo na hora da cena dela, nossa diretora deixava ela dormindo na cena. Eu e ela fomos muito bem tratadas, ela ia no colo de todo mundo, estava muito feliz com o ambiente. Nossa, isso me emociona demais. Quando o ambiente acolhe, a criação flui e a maternidade também.
4- Seu novo filme fala sobre violência doméstica e o recomeço de uma mulher. De alguma forma, essa personagem se conecta com o seu próprio momento de recomeço pessoal e profissional?
Totalmente. A Camila, minha personagem, está tentando se reconstruir e sobreviver como mãe solo sem nenhuma rede de apoio. Infelizmente, ela passa por violências que ela nem sabia que eram violências. Foi um desafio enorme me conectar com ela. Graças a Deus tenho um marido/ pai muito presente, amoroso e uma rede de apoio familiar maravilhosa completamente diferente da Camila. Não foi fácil estar na pele dela mas viver isso me fortaleceu como mãe. Voltar ao trabalho nesse contexto, contar a história de uma mulher tão forte e autêntica foi quase terapêutico. Eu me reconheci em várias camadas dela.
5- Você é uma mulher preta, atriz, mãe e vive num meio ainda cheio de cobranças e estereótipos. Como enxerga o desafio de ocupar esse espaço com autenticidade e vulnerabilidade ao mesmo tempo?
É um equilíbrio delicado. Às vezes parece que esperam que a gente seja forte o tempo todo. Mas ser forte também é se permitir sentir, cair, refazer. Tento ocupar esse espaço com honestidade. Com todas as minhas contradições, alegrias e medos. Acho que isso é o mais político que posso ser.
A Ninna ( diretora) queria uma atriz que estivesse no puerpério, e eu agradeço muito por nossos caminhos terem se cruzado nesse momento tão único.
6- A maternidade costuma nos transformar em todos os sentidos inclusive no modo como olhamos para o mundo. O que a chegada da Pérola te ensinou sobre você mesma?
Ela me ensinou sobre presença. Sobre estar inteira no agora. Me ensinou também que eu sou mais capaz do que imaginava e mais vulnerável também. A Pérola é um espelho e um convite constante para eu ser mais amorosa comigo e com o mundo. Mas é tudo muito profundo e contraditório às vezes. Confesso que ainda hoje olho para o espelho e não me reconheço direito. Meu corpo não é mais o mesmo e é muito difícil se olhar e não se reconhecer. Essa questão com a identidade é dura….tenho conversado com muitas mães sobre isso. Me alivia saber que todas passam por isso. Com o tempo, as coisas se encaixam.
7- Existe uma romantização muito grande da “mãe perfeita”. Você acredita que estamos começando a falar mais da maternidade real? Como é lidar com as expectativas externas e as internas?
Sim, estamos começando mas ainda é difícil. A idealização da mãe perfeita machuca. Eu mesma me cobro muito. Mas tenho aprendido a acolher as falhas, a entender que perfeição não é o objetivo. Quero ser uma mãe possível, presente, humana. E isso já é muito. Outro detalhe que faz uma enorme diferença é entender que a maternidade é única. A minha vivência não é igual a de outra mãe. E temos que ouvir e respeitar os sentimentos legítimos de cada mãe. Hoje temos informações importantes sobre a maternidade, puerpério, mudança hormonal, mental e emocional de cada mamãe. O meu conselho vai para os homens:
ESTUDEM! Acolham suas mulheres….pesquisem a complexidade que é um corpo gerar uma vida.
8- Muitas mulheres se sentem perdidas após o parto, como se tivessem se apagado um pouco. O que você diria para essas mães que estão tentando se reencontrar?
Tenha calma. Existe um tempo do luto pela mulher que você era e outro tempo para acolher quem você está se tornando. Reencontrar-se não é voltar a ser quem era, é descobrir novas versões de si. E isso é bonito, mesmo quando dói.
9- Quando você pensa na sua filha crescendo, que tipo de exemplo quer deixar pra ela sobre ser mulher, mãe e profissional?
Quero que ela saiba que pode ser tudo que quiser, do jeito que quiser. Que não precisa se encaixar. Que ela tenha voz e coragem para realizar seus sonhos. Quero que veja na mãe dela alguém que viveu com verdade e entusiasmo.
10- E pra encerrar: o que significa, pra você, “se reencontrar como mulher depois da maternidade?”
Se reencontrar como mulher depois de ser mãe significa abrir espaço pra se ouvir de novo. Redescobrir o próprio corpo, os próprios desejos, os sonhos que ficaram em pausa. É lembrar que a maternidade é uma parte de mim mas não é o todo. Me reencontrar como mulher é me autorizar a ser múltipla.
Edição: Isabel Kurrle