As mulheres que sustentam o mundo

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Escrever sobre mulheres no Dia Internacional da Mulher nunca foi simples
mas talvez hoje seja ainda mais difícil.

Vivemos um tempo em que as conquistas femininas avançam em muitas áreas, enquanto a violência contra mulheres ainda insiste em nos lembrar o quanto a desigualdade permanece viva.

Durante séculos fomos ensinadas a calar.

A própria história ajudou a construir esse silêncio. Um exemplo simbólico é Maria Madalena. Por muito tempo retratada de forma distorcida como uma pecadora arrependida, quando estudos históricos e teológicos mais recentes mostram uma mulher muito mais complexa e potente: discípula próxima de Jesus, testemunha da crucificação e a primeira pessoa a anunciar a ressurreição. Em muitos relatos ela aparece como liderança espiritual em um tempo em que quase nenhuma mulher tinha voz pública.

Foto: Marchas de mulheres no início do século XX reivindicavam direitos políticos e trabalhistas, dando origem ao movimento que consolidaria o Dia Internacional da Mulher.

Mesmo assim, sua história foi reescrita bem provavelmente por um homem.

Talvez porque mulheres que pensam, falam e caminham ao lado da história sempre incomodaram.

Mas apesar das tentativas de apagamento, as mulheres nunca deixaram de existir no centro das transformações do mundo.

No Brasil de hoje, por exemplo, quase metade das casas já são sustentadas por mulheres. Segundo dados do IBGE, 49,1% dos lares brasileiros têm mulheres como chefes de família, um crescimento enorme em relação às últimas décadas.

Isso significa milhões de mulheres sustentando casas, educando filhos, pagando contas, criando futuro.

E muitas fazem isso sozinhas.

O empreendedorismo feminino também cresce. O Brasil já tem mais de 10 milhões de mulheres donas de negócios, número que aumentou cerca de 42% nos últimos anos.

Hoje elas representam cerca de um terço dos empreendedores do país e, em muitos casos, são também as principais responsáveis pela renda familiar.

Não é apenas sobre trabalho.

É sobre reinvenção.

Mulheres empreendem porque querem independência, porque precisam sustentar seus filhos, porque transformam criatividade em sobrevivência.

Mas ainda assim seguimos lutando.

Lutam as que escrevem.
As que cantam.
As que pintam.
As que educam.
As que pesquisam.
As que ocupam espaços que durante séculos foram reservados apenas aos homens.

E quando vemos mulheres ocupando lugares historicamente masculinos como a ministra Cármen Lúcia, cuja voz firme ecoa dentro de um dos tribunais mais importantes do país percebemos que cada presença feminina nesses espaços ainda é um ato político.

Foto: Carlos Moura / STF (Supremo Tribunal Federal)

Mas também é impossível falar de mulheres sem lembrar das que pagaram um preço alto demais por não se calarem.

O nome de Marielle Franco tornou-se um símbolo dessa coragem. Mulher negra, periférica, socióloga, vereadora, que ousou enfrentar estruturas de poder e denunciar violências. Foram anos de espera por respostas. Anos para que os responsáveis por tirar sua vida fossem responsabilizados.

Foto: Foto: Mídia Ninja / Wikimedia Commons

Marielle foi assassinada mas sua voz não morreu.

Ela continua ecoando em milhares de mulheres que se recusam a aceitar o silêncio.

Porque enquanto celebramos conquistas, também precisamos olhar para a dor, as nossas e a de todas.

O feminicídio continua a tirar a vida de mulheres todos os dias.

Mulheres que vivem em estado permanente de alerta.
Mulheres que caminham olhando para trás.
Mulheres que têm seus corpos violados.
Mulheres assassinadas simplesmente por decidir encerrar relações abusivas.

O feminicídio não nasce de um impulso isolado.

Ele nasce de uma cultura que durante séculos ensinou homens a acreditar que mulheres são propriedade.

E talvez uma das reflexões mais profundas esteja justamente aí.

Nós, mulheres, somos também as que trazemos ao mundo muitos desses homens.

Como mãe de dois meninos, carrego diariamente essa responsabilidade: educar homens que saibam respeitar mulheres, que saibam escutar, dividir espaços e compreender que a presença feminina não é concessão é parte essencial da humanidade.

Que saibam romper com o machismo que atravessa gerações.
Que entendam que força não é violência.
Que aprendam que amor nunca é posse.

Ser mulher é ser múltipla.

“Somos as que geram vida.
As que sustentam casas.
As que inventam arte.
As que escrevem história.
As que transformam dor em coragem” – Amanda Carvalho.

Cada conquista que temos hoje foi aberta pelas mãos de mulheres que vieram antes de nós.

E por isso termino dedicando estas palavras às minhas mulheres preferidas.

À minha avó Maria, mãe de dez mulheres fortes.
À minha mãe Selina, que me ensinou sobre amor e resistência.
Às minhas irmãs Rejane e Rita.
À minha sobrinha Carolina.
À minha cunhada Suzane.
E às minhas amigas, mulheres que todos os dias seguem criando, lutando, cuidando e reinventando o mundo.

Foto:Marchas contemporâneas mostram que a luta das mulheres continua global, reunindo milhões de pessoas em defesa de igualdade e justiça.

Este dia é para vocês.

E para todas nós.

Porque quando uma mulher se levanta, ela nunca se levanta sozinha.

Ela levanta gerações.

Edição: Isabel Kurrle

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