Quando o corpo fala o que as palavras não conseguem dizer
O que não é expresso em palavras, muitas vezes se manifesta no corpo. A automutilação, prática cada vez mais presente entre adolescentes, pode ser entendida como um grito silencioso: uma tentativa de regular emoções intensas, aliviar um vazio ou comunicar uma dor que não encontra espaço na fala.
Sigmund Freud, através da psicanálise, já apontava que conteúdos reprimidos da mente acabam emergindo no corpo e no comportamento. E é justamente na adolescência, fase de transformações intensas, que essa vulnerabilidade se torna mais evidente.
Um cérebro em construção- A chave técnica que auxilia na compreensão dos pais e reposiciona as responsabilidades
O cérebro humano só se completa por volta dos 25 anos. Antes disso, especialmente na adolescência, o jovem vive um desequilíbrio natural entre razão e emoção.
Entenda que, enquanto o sistema límbico — responsável pelas emoções — está em plena atividade, o córtex pré-frontal, ligado a decisões racionais e ao controle dos impulsos, ainda está em desenvolvimento.
Essa combinação torna o adolescente altamente propenso a agir movido pela emoção do momento, buscando sensações rápidas e preferivelmente intensas, sem plena consciência das consequências a longo prazo.

Pela falta da completa formação da parte racional e lógica, o corte pré-frontal, o adolescente embasa as suas decisões em um sistema que não auxilia em uma tomada de decisões racionais, o sistema límbico, que é altamente emocional.
- Sistema límbico hiperativo: a amígdala e outras estruturas emocionais estão mais sensíveis, gerando reações rápidas, intensas e, por vezes, extremas.
- Busca por alívio imediato: o cérebro adolescente responde fortemente à dopamina. A automutilação pode liberar endorfinas e serotonina, proporcionando uma sensação passageira de alívio, ainda que prejudicial com o tempo.
O papel dos pais e responsáveis e o que fazer para resultados efetivos
A automutilação muitas vezes surge em contextos de vulnerabilidade emocional. Fique alerta aos fatores de risco:
-Bullyng, histórico de traumas, problemas com autoestima, pressão social, comparações;
-Conflitos familiares e negligência;
-Problemas emocionais como depressão, ansiedade e demais;
-Grupos que tratam a automutilação como normalidade. -Observar sempre aquilo que nos mostra, sem dizer, como o uso de roupas longas em dias de calor, isolamento repentino, mudanças bruscas de humor e feridas frequentes acompanhadas de justificativas vagas
O caminho para ajudar começa pelo acolhimento. Julgar ou repreender fecha portas; escutar com atenção e validar sentimentos abre espaço para o diálogo. Nomear emoções, oferecer segurança e mostrar-se presente faz toda a diferença.
Educar emocionalmente é o papel dos pais e/ou responsáveis, ajudando o adolescente a reconhecer e expressar o que sente. Para isto, acolha sem julgamentos, eles precisam de suporte emocional adulto e emocionalmente saudáveis. Os pares, amigos e/ou iguais estão na mesma fase de desenvolvimento e não são úteis para auxiliar por todas estas razões.

Um olhar além da dor
Mais do que um ato em si, a automutilação é um sintoma de sofrimento profundo. Reconhecê-la como um pedido de ajuda é o primeiro passo para transformar dor em cuidado e silêncio em diálogo. No caso de não se sentir preparado emocionalmente para lidar com isto, chame ajuda, antes que seja tarde, busque um profissional recomendado, a quem possa confiar o seu filho. Você não precisa saber tudo para oferecer os cuidados necessários em casos como este. Quer ser um bom pai ou uma boa mãe? Seja um bom exemplo para o seu filho, além de acolher e pedir ajuda sempre que necessário.
Michelle Pajak- Mãe, Psicóloga e Treinadora Comportamental Sócia-Diretora da Ser Humano Desenvolvimento Cursos e Treinamentos