Bob Marley completou 81 anos agora, neste início de fevereiro e lembrar dessa data é lembrar que o reggae nunca foi apenas música. Sempre foi mensagem, palavra cantada como resistência, espiritualidade e consciência coletiva. Um ritmo que atravessou o mundo falando de justiça, amor e fé sem nunca se desconectar da vida real.
Na minha adolescência, foi através do reggae que aprendi que havia profundidade onde muitos só viam estereótipo. Que existia espiritualidade fora dos templos, política fora dos discursos endurecidos e fé que se manifestava no corpo, no ritmo e na palavra cantada.
Foi no centro de Canoas, entre uma turma de amigos muito viva, curiosa e criativa, que conheci o reggae na sua essência.E foi ali também que acompanhei, desde cedo, a trajetória de um amigo que até hoje carrega esse ritmo com verdade: Sandro Medeiros, o nosso Negrito.
Negrito é canoense de alma e coração. Nascido em 1977, vem de uma família profundamente ligada à história da cidade, servidores públicos, militares, poetas e escritores.
Carrega também uma ancestralidade negra potente: sua bisavó, dona Castorina, foi a primeira mulher negra a se casar na Igreja Matriz de Canoas, deixando um legado de dignidade, presença e pertencimento que atravessa gerações.
A música sempre esteve ali, como linguagem natural da vida. Nos encontros familiares de domingo, regados a samba, jazz, blues e rock. Nos corais do Colégio Maria Auxiliadora e do La Salle, onde sua voz já se destacava cedo.
Nos hinos, nas estruturas musicais, na curiosidade profunda pelo som coletivo.Ainda muito jovem, no seu primeiro emprego, Negrito trabalhou no Estúdio Worship, em Canoas, um estúdio de ensaio e gravação ligado à cena cristã da época. Operando mesas, recebendo bandas e aprendendo sobre estrutura musical, ele teve ali um contato decisivo com o reggae consciente. Foi nesse espaço que conheceu, pela primeira vez, o som da banda Cristafari. Naquele momento, sem saber, uma semente já estava sendo plantada: o reggae como ponte entre fé, consciência e verdade.No fim dos anos 90, o reggae fervilhava nos bares de Porto Alegre. Bandas como PureFeeling, Motivos Óbvios, Produto Nacional e Diretoria movimentavam uma cena potente.
Em 1999, Negrito forma a primeira banda de reggae de Canoas. Pouco depois, reencontra antigos colegas do La Salle, como Rodrigo Poch, e junto de Maurício Silveira, Alex Xavier, Rodrigo Costa e Thiago Souza, forma a banda Catch a Fire, um encontro quase místico de trajetórias que já se cruzavam desde a juventude.

A banda cresce, ganha destaque e passa a ser empresariada pelo produtor Pisca, ocupando palcos importantes do estado. Em 2000, participa da coletânea Reggae Nova Safra, lançada pela gravadora Raízes, com músicas autorais, um marco para o reggae gaúcho. Foram anos intensos de shows, festivais e construção de um público fiel, maduro e atento.
A vida adulta pede pausas. Cada integrante segue seus caminhos, suas formações, seus trabalhos. Mas a música nunca se afasta. Ela amadurece.Desse amadurecimento nasce, em 2023, a banda Woke Up The Lions, que lança o álbum What’s True, produzido por Ismael Giacomelli e Gerson Volkart. Um disco que impressiona pela qualidade, pela escolha do inglês e pela profundidade musical reafirmando a potência e a seriedade dessa caminhada.A trajetória de Negrito também se expande para fora do país.
Ele vive experiências na Ásia, passa por Dubai, Tailândia e Bangkok, fixa residência em Barcelona e participa do Rototom Sunsplash, o maior festival de reggae do mundo. Ali, vive uma imersão total: oficinas, estudos, trocas e aprendizados sobre a estrutura, a dinâmica e a espiritualidade do reggae mundial.
Em 2015, Negrito se converte ao cristianismo. Não como ruptura, mas como aprofundamento. A fé passa a ocupar um lugar central em sua vida e o reggae permanece. Porque sempre esteve ali. Porque nunca foi apenas estilo musical. Sempre foi mensagem.De volta ao Brasil, durante a pandemia, retoma a música ao lado do produtor, tecladista e baixista Lucas Riccordi. Dessa parceria nasce o álbum solo Promise Land. Depois vêm músicas como Someday, que carrega um dos momentos mais simbólicos de toda essa trajetória: o solo de guitarra gravado por Renato Taimes, guitarrista da Cristafari a mesma banda que havia cruzado seu caminho lá atrás, no Estúdio Worship. Um sinal claro de que algumas mensagens nos acompanham a vida inteira, apenas aguardando o tempo certo para se revelarem.Em 2025, Negrito inicia a gravação de um novo álbum solo.
A primeira faixa, Mama y Dada, nasce como um gesto de amor, memória e gratidão. O trabalho conta com músicos como Thiago Rasta, reafirmando a força espiritual, afetiva e musical desse novo momento.
Negrito é um cara íntegro. Cheio de amigos. Um artista que construiu sua caminhada com lealdade, afeto e coerência. Um homem que hoje leva, através das suas músicas, com o mesmo ritmo que Bob Marley levou ao mundo, valores essenciais: o amor à vida, o respeito às origens e a gratidão a quem nos colocou no mundo.
Sua trajetória é ponte entre fé e resistência entre passado e presente entre a adolescência cheia de sonhos e a vida adulta vivida com propósito.Sou fã.Sou testemunha e sigo admirando um trabalho que respeita o tempo, a música e a verdade.
Convido a todos a escutarem Sandro Medeiros o ” Negrito” nas plataformas digitais porque algumas vozes não são apenas músicas são caminhos.
Entrevista – Sandro Medeiros (Negrito)
1.O reggae sempre foi associado à resistência, à espiritualidade e à palavra cantada como mensagem. Em que momento da tua vida tu entendeste que esse ritmo não era apenas uma escolha musical, mas um chamado?
Creio que esse processo foi mais uma das loucuras que a vida nos traz. Toda a minha vida foi cercada por arte e música e, nessa caminhada, com tudo o que me foi acrescentado, chegou um determinado momento em que pude separar o que me servia e o que eu podia descartar.
Nesse processo, o reggae, lá no meio dos anos 90, foi um estilo musical que me passava não apenas uma mensagem, mas que contava histórias reais: vida, batalhas, amor e superação.
Isso foi algo que sempre esteve presente na minha vida, portanto foi um processo muito natural. Eu costumo dizer que o reggae me escolheu e não eu que escolhi o reggae.
2.Tu cresceste em Canoas, numa família marcada por cultura, encontros, música e ancestralidade negra. Que memórias da tua infância e juventude ainda ecoam diretamente na forma como tu canta e escreve hoje?
Tudo. Eu levo tudo o que eles me ensinaram.
Os encontros dominicais na casa da minha falecida avó eram uma loucura. Imagina 12 irmãos eu dizia que aquilo era um quilombo multirracial (risos). Tinha muito aprendizado de vida, zelo, cuidado e respeito.
Nas rodas de samba que duravam o dia inteiro, eu aprendia muito. Meus tios, compositores e poetas, eram um poço de sabedoria. Sempre foram muito verdadeiros, como artistas e como seres humanos.
É isso que até hoje levo para a minha maneira de cantar e criar: ser quem eu realmente sou em essência, sem disfarce, cru, visceral, o mais verdadeiro possível.
3.Em 2015, tua conversão ao cristianismo marca um ponto importante da tua trajetória. Como a fé transformou a tua relação com a música e por que o reggae continuou sendo o caminho e não algo deixado para trás?
Minha conversão foi um momento muito louco na minha vida. Deus nos escolhe pelo amor ou pela dor o meu processo foi pela dor. Mas foi um dos melhores momentos de toda a minha vida.
A música, naquela época, já tinha um forte significado pra mim. O processo de conversão apenas me levou mais fundo, e muito mais fundo. Me mostrou a responsabilidade de não falar sobre qualquer coisa artificial, que não agregue valor, que não edifique o próximo.
Em 100% das minhas composições, eu falo apenas sobre o que vivi, passei ou senti. Essa é uma forma genuína de comunicação e de tocar corações. A mensagem sempre deve tocar de forma positiva, na minha concepção.
Na verdade, eu não quero tocar milhões de pessoas. Se eu conseguir tocar um coração de forma positiva, eu já ganhei o meu dia, o meu ano.
E o reggae é um estilo que sempre transitou de forma sublime entre muitas pessoas. Ele tem muitas possibilidades e formatos. Conseguir fazer isso dentro do estilo que eu verdadeiramente amo me faz sentir um privilegiado.
4.Existe algo muito simbólico no fato de, lá no início da tua caminhada, no Estúdio WORSHIP, tu teres conhecido o som da Cristafari e, anos depois, receberes um solo de guitarra de um músico da banda em uma das tuas canções. O que esse “retorno” significa pra ti hoje?
Essa é a maior loucura de Deus na minha vida (risos).Eu me recordo que sentei e chorei. Voltei no tempo, quando tinha 17 anos, e o Gabriel, dono do estúdio, me deu o CD da Cristafari e disse: “Tu gostas, né? Então escuta isso” (risos).
Não foi acaso. Não foi destino.
Me recordo que meu produtor, Lucas, me disse: “Sabe quem gravou essa guitarra?”. Era o Renato Taimes, da Cristafari. Gente, eu fiquei paralisado.
Eles estavam gravando uma coletânea inédita com familiares da família Marley, junto de um produtor holandês. O Lucas mostrou meu trabalho, contou minha história, e o Renato curtiu muito. Ele fez uma das guitarras mais lindas que já escutei em uma faixa de reggae.
Nesse momento, eu sempre penso em Deus olhando pra mim e rindo, dizendo: “Viu? Eu te falei” (risos). Chora, porque eu estou no controle.
Sou extremamente grato a todos eles.
5.Hoje, olhando para tudo o que já foi vivido Canoas, os palcos, as pausas, as viagens pelo mundo, a fé, os discos o que tu sente que ainda precisa ser dito através da tua música? e que mensagem tu gostarias que quem te escutas carregasse consigo?
Tenho muita convicção de que ainda há muito a ser dito não apenas por mim. Eu sou apenas um meio, um instrumento.
Nosso mundo evolui de forma muito frenética, muito rápida. Acredito que cada vez mais precisamos de pessoas conscientes, que consigam dar direção à paz, à compreensão, ao amor, ao perdão e à felicidade. Isso é o que realmente importa.
Como eu disse, sou apenas um instrumento, e vou continuar essa caminhada.
Para mim, essa é a verdadeira resistência: não se curvar às coisas erradas do mundão.
A mensagem que deixo a todos é: vivam. Vivam da forma mais intensa possível, sempre no caminho da retidão.
Sejam gratos por tudo pelas coisas boas e pelas ruins. Tudo é passageiro, a verdadeira felicidade está no pouco, no amor, na luta, no dia a dia. Está em sempre voltar para a família, para os filhos e para os verdadeiros amigos.
Nada é de graça tudo é pela graça.
Uma das frases da minha vida é: “Eu amo.”
Às vezes é difícil mas é o melhor caminho.

É no simples. É não se iludir com as loucuras que o mundo de hoje nos põe à mesa.
Gosto muito de uma frase do Jim Carrey, quando ele anunciou a aposentadoria:
“Eu tenho o suficiente. Já fiz o suficiente. Sou suficiente.”
Um abraço a todos. Desejo sempre tudo o que há de melhor nessa vida
https://www.instagram.com/negrittongt?igsh=czRkMmVtc3l6b2Rk
Edição: Isabel Kurrle