Nos últimos dias, uma nova música da dupla Maiara & Maraisa tem feito barulho nas redes sociais. Com batida envolvente e refrão marcante, “Borderline” caiu no gosto do público — e, como costuma acontecer com grandes lançamentos, virou trend em vídeos, stories e playlists.
Mas junto com a popularidade da música, veio também um alerta importante: será que estamos falando sobre saúde mental com a responsabilidade que ela merece?
Quando o entretenimento cruza a linha do cuidado
A letra fala sobre alguém emocionalmente instável, intensa, que ama e rejeita, que bloqueia e depois volta. E o título — “Borderline” — não deixa dúvida sobre a intenção de nomear esse comportamento como um transtorno. O problema é: o Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) não é sinônimo de intensidade emocional ou comportamento contraditório. É uma condição clínica séria, que causa sofrimento real e profundo. Transformar esse diagnóstico em adjetivo, ou usá-lo como metáfora para relações complicadas, pode parecer inofensivo à primeira vista. Mas não é.
O que é, de fato, o Transtorno de Personalidade Borderline?
O TPB é um transtorno caracterizado por instabilidade emocional intensa, medo do abandono, impulsividade, crises de identidade e relações marcadas por extremos. As emoções vêm como ondas fortes, que muitas vezes a pessoa não consegue controlar — e isso gera dor, conflitos, sentimentos de culpa, e muita confusão interna.
Não é drama. Não é exagero. E muito menos uma escolha.
A maioria das pessoas com TPB não corresponde ao estereótipo de “pessoa difícil” que vemos na cultura pop. Pelo contrário: muitas vivem em silêncio, lutando diariamente para manter seus vínculos, seus afetos e a própria autoestima.
O risco de transformar diagnósticos em rótulos
Quantas vezes já ouvimos frases como “fulano é muito borderline”, “isso é coisa de bipolar”, “nossa, que narcisista”? É preciso ter cuidado. Quando usamos termos clínicos fora de contexto, sem entendimento do que realmente significam, banalizamos o sofrimento alheio e corremos o risco de reforçar estigmas que afastam as pessoas do cuidado.
Não se trata de censurar a arte ou a música — mas de fazer escolhas conscientes. Podemos curtir a música, cantar junto, dançar… e, ao mesmo tempo, usar isso como ponto de partida para uma conversa mais profunda: o que estamos dizendo, quando dizemos “borderline”?
Escuta, acolhimento e informação: o que realmente ajuda
Se você convive com alguém que tem reações emocionais intensas, mudanças de humor, medo de rejeição… talvez o melhor que possa oferecer seja escuta. Um espaço seguro. Um olhar que não reduz aquela pessoa a um rótulo. E, claro, o incentivo para que ela busque apoio psicológico profissional. E se você se identificou com algum ponto deste texto — se sente que vive emoções à flor da pele, que seus relacionamentos parecem sempre um campo minado, ou se sente perdido(a) dentro de si — saiba: você não está sozinho(a). Buscar ajuda é um ato de coragem, não de fraqueza.
Precisamos falar, sim — mas com responsabilidade
A música pode passar, virar hit por uma temporada. Mas as palavras que usamos, a forma como tratamos a saúde mental, deixam marcas duradouras. Que essas marcas sejam de cuidado, empatia e acolhimento — não de julgamento ou banalização. Borderline não é drama. É uma realidade que merece ser ouvida com mais sensibilidade e responsabilidade.
Paula Ferreira
Psicóloga | CRP 12/25187
Atendimento clínico online com base na Abordagem Centrada na Pessoa
Instagram: @paulaferreira_psi