No começo dos anos 2000, li o primeiro livro publicado por Érico Veríssimo: Fantoches.
Entre suas páginas havia uma história que me marcou profundamente, chamada Nanquinote.A ironia da vida é que esse livro, hoje tão raro, enfrentou um destino curioso. Grande parte de sua edição foi destruída por um incêndio, e ele acabou se tornando uma obra pouco lembrada dentro da gigantesca produção literária de Érico Veríssimo.
Décadas depois, porém, o próprio escritor voltou a folhear aquele velho livro de estreia e fez rabiscos em suas páginas, desenhando como imaginava seus personagens: o palhaço de losangos vermelhos, o pirata que tocava pratos, a bailarina de papelão e a barata preta.
Essa mesma história acabaria ganhando nova vida em minhas mãos. Quando fui diretor do Grupo Experimental de Teatro da Unicruz, em Cruz Alta, adaptei-a para o palco.
Foi uma experiência especial, Cruz Alta aliás mantém viva a memória de seu filho mais ilustre através do Museu Érico Veríssimo.
Também tive a oportunidade de visitar o espaço dedicado ao escritor em Porto Alegre, onde sua trajetória continua inspirando leitores.
É curioso pensar que um primeiro livro tenha sido recebido com tão pouca atenção e ainda tenha enfrentado um incêndio. Anos depois, o mesmo autor se transformaria em um dos maiores incêndios da literatura brasileira.
Sua obra iluminaria gerações inteiras de leitores, talvez isso nos ensine algo importante: os leitores raramente encontram seu livro favorito logo na primeira tentativa.
Muitas vezes é preciso percorrer estantes, autores e caminhos até encontrar aquela história que parece ter sido escrita especialmente para nós.
Entre todas as obras de Érico Veríssimo, considero Incidente em Antares uma das mais extraordinárias.
O próprio autor reconheceu que parte da inspiração para esse romance vinha das experiências imaginativas presentes em seus primeiros escritos. Neste livro os mortos se recusam a permanecer enterrados e ocupam o coreto da praça da cidade, expondo hipocrisias, injustiças e contradições sociais.
É uma obra de fantasia mas também uma crítica política e humana profundamente atual, escrever exige coragem.
Em cada livro, o autor deixa pistas de si mesmo, compartilha visões de mundo, inquietações, sonhos e perguntas. Quem escreve oferece ao leitor uma parte da própria alma.

Em Fantoches, Nanquinote percorria o mundo em busca do amor e encontrava sua primeira grande decepção na figura da bailarina de papelão, destinada a ser destruída pela barata preta numa vitrine esquecida de uma rua triste.
É impressionante imaginar que já em 1932, Érico Veríssimo demonstrava tamanha inventividade.Os livros atravessam o tempo, inspiram gerações, mudam de formato mas não perdem sua essência.
Hoje muitos leitores trocam as páginas de papel pela tela do celular, eu mesmo leio bastante no celular. O suporte muda; a experiência permanece.
O que realmente importa é que a leitura nos oferece uma viagem sem volta, cada livro é uma porta.
Há portas que conduzem às lágrimas, outras ao riso, algumas nos levam ao conhecimento técnico, outras ao autoconhecimento.
Existem portas para a filosofia, para a fantasia, para o mistério e até para o desconhecido que carregamos dentro de nós.
E atrás de cada porta há palavras esperando para serem descobertas. Palavras capazes de apresentar novos olhares, ampliar horizontes e quem sabe transformar silenciosamente a nossa rotina.
Texto: Cassiano Pellenz