Semana passada, Canoas completou 86 anos. Uma cidade que eu carrego comigo desde sempre, mesmo quando morei em outro estado, mesmo quando quase ninguém sabia onde ficava. Eu dizia: “Canoas, sabe? Grande Porto Alegre.” E completava com alguma referência pra ajudar, porque pra mim, Canoas sempre foi mais que uma localização. É raiz.
Sou do bairro Igara e tenho a sorte de ainda caminhar pelas praças onde vivi os verões da adolescência, onde passávamos as tardes com amigos da escola, do bairro, da vida. Canoas foi cenário de uma infância com cheiro de fruta, de vizinho na calçada, de hino da cidade cantado na escola. E essas memórias seguem vivas em mim e em tantos outros que, como eu, continuam se reconhecendo nesse chão.
Hoje somos quase 460 mil habitantes. Canoas cresceu, se expandiu, virou destino de brasileiros de outros estados, de imigrantes, de gente que vem pra ficar. Deixamos de ser aquela cidade que “dormia ao lado da capital” para virar uma cidade de escolha. Mas junto com esse crescimento, vem uma pergunta importante: o que nos mantém conectados?
Pra mim, a resposta é clara: cultura e pertencimento.
Pertencimento é quando a gente se vê na cidade.
É quando um jovem pode ocupar um palco e saber que aquela voz importa.
É quando uma criança entra num espaço cultural e entende que aquilo também é pra ela.
É quando um bairro recebe uma ação cultural e se sente lembrado.
A cultura sustenta nossa identidade. E a de Canoas é diversa desde o início. Povos indígenas, especialmente os Mbya-Guarani, ocuparam essas terras muito antes da cidade existir. Depois vieram imigrantes europeus, italianos, alemães, açorianos e também os povos negros que, mesmo sob violência e apagamento, seguem resistindo e contribuindo com saberes fundamentais. Temos comunidades quilombolas, como a Chácara das Rosas, que fazem parte viva dessa história. Tudo isso forma o DNA cultural da cidade.
E mais recentemente, foi também a cultura do cuidado, da solidariedade e da empatia que nos sustentou durante a enchente de 2024 uma das piores da história. Canoas foi uma das cidades mais atingidas. Mas a resposta foi coletiva. Vimos moradores se ajudando, vizinhos abrindo as portas, artistas criando redes de apoio. Foi a cultura do afeto que nos manteve de pé.
É por isso que, neste aniversário, quero parabenizar Canoas não só pela idade, mas pelo que ela pode continuar sendo. Uma cidade com espaços culturais acessíveis, com fomento à arte nos bairros, com escuta verdadeira das diferentes realidades de quem mora aqui. Uma cidade onde todos se sintam parte, do centro ao extremo norte, da história ao presente.
A Semana de Canoas tem mostrado esse potencial: programação diversa, gratuita, acessível. Tem música, cinema, literatura, oficinas, arte nas estações, nas ruas, nas escolas. É o tipo de movimento que faz sentido. Que aproxima. Que planta futuro.
Parabéns, Canoas.
Que teus 84 anos inspirem mais participação, mais inclusão e mais cuidado com quem constrói essa cidade todos os dias.
Somos muitos e cada um tem um lugar nessa história.

