A Leny Barcelos é um daqueles talentos que já surgiu grande. Sabe quando tu vê um artista e parece que ele faz aquilo a vida inteira? Cantora, compositora e pensadora dos barzinhos aos grandes palcos, da MPB ao reggae e ao rock.
Da música brasileira na infância até ser contagiada pelo hard rock na adolescência, a trajetória de Lenny ultrapassa rótulos e encontra inúmeras formas de tentar definir a força de sua música e a potência de seu talento. Desde a infância entre terreiros e vinis ao rock que moldou sua adolescência, a artista fala sobre trajetória, inspirações, desafios e o poder de manter a cabeça boa.
Intensa, verdadeira, crítica e sagaz, Leny é uma artista com a cara e a força da música brasileira independente. Nesta entrevista, ela compartilha as reflexões que moldam sua arte e sua visão de mundo.
Entrevista
Leny, como foi o teu primeiro contato com a música?
Acho que foi desde sempre. Minha mãe foi mãe solteira e eu convivi a maior parte da minha vida com a família materna. Ao lado da minha casa tinha um terreiro; meu tio era pai de santo o Joãozinho do Meia Noite , então eu acompanhava toda a função das festas e, às vezes, alguns instrumentos musicais ficavam lá em casa.
Minha família gostava muito de ouvir vinil, então desde criança eu também gostava. Pela família do meu pai, tenho irmãos que são músicos. Quando criança, eu gostava muito de desenhar, e minha vó tinha um disco do Frank Sinatra que ela tocava e reunia a família inteira pra me ver dançar (risos).
Aos 15 anos, eu ganhei um violão, e foi com uma fitinha K7 do Appetite For Destruction, do Guns N’ Roses, que eu comecei.
Quando tu percebeste que tinha uma carreira na música?
O primeiro contato sério foi ali pelos 15 anos, né? Depois tive que dar uma parada pra trabalhar. Mas como eu saía pra vários lugares e estava sempre com o violão tocando, eu recebia muitos convites.
Nessa época de CLT, como eu tinha um bom relacionamento com meus patrões, conseguia sair mais cedo do trabalho pra tocar nos bares. Lembro que, quando saí desse emprego, eu comprei equipamentos pra tocar e também pra tatuar. Assim eu comecei a me jogar com tudo.
Quais são as tuas principais influências musicais?
Eu sempre fui muito eclética e radical. Mas, na adolescência, minhas maiores referências foram Appetite for Destruction, do Guns, Smashing Pumpkins, Incubus… Eu não ouvia muita música brasileira além das que eu já conhecia em casa. Os Aboleirados, samba, bossa, pagode 90 toda essa influência familiar.
Qual teu álbum favorito?
O álbum que mais me marcou foi Appetite For Destruction, do Guns N’ Roses. Com ele, eu entendi o que era fazer um trabalho na música: construir um álbum, escolher a ordem das faixas, definir uma temática.
Qual a tua obra favorita criada por ti?
Me Usa, com certeza, pela relação que eu tenho com essa música. Eu compus quando tinha 19 anos e tentei gravar muitas vezes, mas só consegui com 35, 36. Por tudo isso e por ter gravado em parceria com o Tonho Crocco, da Ultramen , depois de tantos anos, teve um desfecho com chave de ouro.

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Qual o show mais marcante que tu fizeste?
A Parada Livre de Porto Alegre, em 2024. Foi uma das primeiras apresentações com banda e a gente tava se adaptando a um palco grande. Pegamos uma plateia de 15 a 20 mil pessoas no Parque da Redenção e foi uma prova de fogo.
No meio do show, o som do palco deu um apagão. Quando voltou, a gente entrou com tudo. A plateia toda cantando junto… Por pedido da produção, ainda tocamos um pouco mais. Foi lindo e muito marcante pra mim.
E o pior show?
Foi em Canoas, no Bunker. Pouco antes de eu me apresentar, recebi a notícia de que um amigo muito próximo havia sofrido um acidente e falecido o Cristiano Rocha (Funcho). A gente era muito ligado. Foi o pior show que eu já fiz.
Eu tava com aquilo na cabeça, tentando manter o profissionalismo. Era minha primeira vez naquele lugar, mas recebi apoio da equipe do bar, que até me ofereceu cancelar. Eu disse que não e fiz. Por dentro, tava com uma pedra no coração, mas mantive o compromisso.
Qual tu achas que é a maior dificuldade da vida de um artista?
O estigma de que “artista não trabalha”. As pessoas não enxergam a arte como trabalho, sendo que até um projeto estar finalizado existe uma estrutura enorme de trabalho físico, mental e burocrático pra tudo acontecer.
As pessoas só veem a ponta do iceberg e acham que é tudo lindo e maravilhoso mas é uma grande luta. A finalização de um projeto é a comemoração do esforço de muita gente.
Qual a melhor coisa em viver de música?
Trabalhar com o que se gosta. Isso é fundamental.
Que leitura tu recomendarias para os jovens?
Curtindo Música Brasileira: um guia para entender e ouvir o melhor da nossa arte, de Alexandre Petillo, Eduardo Palandi, Erick Miranda e Zé Dassilva. É um guia pra entender a música brasileira.
Acredito que muitos brasileiros não têm noção da dimensão que a nossa música alcança e da influência que ela tem no mundo. O livro é grande e apresenta uma linha cronológica que as pessoas precisam conhecer.
Qual filme ou série tu assistirias mais de uma vez?
Bah! Eu adoro filmes e séries, então é difícil escolher (risos). Mas dos últimos que me chamaram atenção:
O filme Dogville, do Lars von Trier — polêmico, mas muito interessante. Fiquei dias pensando nele. É uma obra crua, teatral, que mostra o comportamento humano e até onde ele pode ir — na crueldade, na benevolência, na passividade.
A série seria Bebê Renna, do Richard Gadd — que escreveu e também atua. Achei bem interessante e uma história muito curiosa.
Se tu pudesse ser um personagem de ficção ou outra pessoa, quem tu gostaria de ser?
Francamente? Ninguém! Eu acho que o que eu tenho na minha cabeça já tá bom, tá ótimo (risos).
A gente vê todo mundo de longe, bonito e lindo… mas já dizia Caetano Veloso: “de perto, ninguém é normal”. Então eu prefiro ser eu mesma (risos).
Que mensagem tu gostarias de pichar num muro?
“Não se acostume com o que não o faz feliz; revolte-se quando julgar necessário.” — Fernando Pessoa.
O que é essencial pra ti?
Acho que não só pra mim, mas pra todo mundo, é estar com a cabeça boa. Porque, com a cabeça boa, independente do que aconteça, a gente vai estar ali pra encarar ou desfrutar.
Pode ser numa leitura, numa corrente religiosa ou espiritual… A gente precisa estar bem com a nossa mente — e o resto é só alegria.
Clipe – Me Usa feat Tonho Crocco
Clipe – Ai Mulher
INSTAGRAM: @lenybarcellos
Edição: Isabel Kurrle