Em Nova Santa Rita, uma cidade que segue construindo e afirmando sua identidade cultural, a escolha de uma patrona para a Feira do Livro vai muito além de uma homenagem.
Educadora, pesquisadora e escritora, Perla Sântos, constrói sua trajetória na intersecção entre educação, arte e identidade. Sua atuação na rede pública de ensino e a idealização do Movimento Meninas Crespas demonstram, na prática, um compromisso com pertencimento, autoestima e transformação social.
“Para mim, receber o convite para ser patrona da Feira do Livro sendo a primeira mulher negra a ocupar esse lugar é, antes de tudo, uma grande responsabilidade, que eu estou assumindo com o máximo respeito”.
A fala de Perla não expressa apenas gratidão. Ela revela consciência histórica, compromisso coletivo e o peso simbólico de um marco que não pode passar despercebido.
É uma decisão que comunica valores, narrativas e aponta caminhos.Como profissional de comunicação e alguém que atua diretamente com projetos de impacto social, vejo nessa escolha um movimento necessário e potente.
Mas é na literatura que sua voz ganha outra dimensão.Ao resgatar memórias, ancestralidades e histórias historicamente invisibilizadas, sua escrita não apenas narra ela reposiciona. Ela convida. Ela provoca. E isso não é pouca coisa. “Essa não é uma conquista individual, é uma vitória coletiva”.
Eu não caminho sozinha caminho com as minhas ancestrais.
Ao trazer suas ancestrais para o centro do discurso, Perla rompe com a lógica do protagonismo isolado e reafirma a escrita como território de memória e continuidade.
Essa conquista representa as mulheres negras que vieram antes de mim, que lutaram, resistiram e muitas vezes, ousaram escrever suas histórias mas partiram no anonimato.
Há, nessa fala, um reconhecimento que também é denúncia e ao mesmo tempo, um gesto de reparação.

Ao assumir esse lugar, ela não apenas ocupa um espaço ela o transforma.“Eu sigo plantando essa semente a semente da nossa escrita, da nossa voz, da nossa existência registrada por nós mesmas.E talvez seja exatamente aqui que reside a maior força dessa escolha.
Mais do que celebrar uma trajetória, a presença de Perla como patrona marca um posicionamento. Indica que a literatura que queremos ver e construir é aquela que acolhe, representa e amplia vozes.
Em Nova Santa Rita, isso ganha ainda mais significado porque não se trata apenas de quem ocupa o lugar de patrona. Trata-se do que esse lugar passa a representar a partir de agora.
Edição e revisão: Isabel Kurrle