Moda afetiva: quando vestir é também abraçar memórias

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Sabe aquelas amizades que ultrapassam o tempo, os quilômetros e até os cabides?

Pois é. Essa coluna nasce de uma dessas — e também de uma certeza: a moda pode (e deve) ser um lugar de afeto, permanência e propósito.

Falar de moda sustentável é, muitas vezes, falar de escolhas conscientes, de dados alarmantes, de alternativas urgentes. Mas hoje, quero trazer à tona o lado mais íntimo e bonito desse movimento: a moda como espaço de memória, reencontro e reexistência.

E para isso, não poderia haver melhor companhia do que minha amiga de duas décadas, Manuela do Monte.
Atriz sensível, inquieta, generosa — e minha parceira de garimpo, de afeto e de pesquisa estética.

Morando em São Paulo, ela é presença constante na minha rotina, mesmo de longe.
Trocas de mensagens com fotos de brechós, áudios sobre sensações que uma roupa provoca, tentativas de look que carregam o humor do dia.
Há mais de dez anos, dividimos peças, misturamos histórias, nos observamos através da forma como escolhemos nos vestir. Uma relação sustentada por roupa, sim — mas, sobretudo, por cuidado.

Na sua última visita a Porto Alegre, Manuela trouxe com ela uma missão simbólica: ressignificar um terno herdado de seu pai, o querido “Tio Beto”. Uma peça marcante, cheia de memórias. E também um desafio: como transformar sem apagar? Como vestir a presença de alguém que já partiu?

Foi então que chamei Mauricio Placeres, estilista e amigo de longa data, para nos ajudar.
Com sua escuta generosa e mãos habilidosas, ele traduziu em linhas e recortes aquilo que palavras não davam conta de expressar.
O resultado foi mais do que uma peça transformada — foi uma nova vida para algo que continuava vivo no tecido, no cheiro, na costura.
Manuela agora carrega no corpo uma extensão da história de seu pai, com um novo significado.

Em outro momento, tão importante quanto, passamos juntas uma tarde no Pandora Brechó, em Porto Alegre — um dos nossos cantinhos preferidos da cidade.
Garimpamos peças, montamos looks, fotografamos.
Ali, entre araras e risadas, reafirmamos algo que sempre acreditamos: moda boa é aquela que nos veste por dentro.

Tudo isso se conecta profundamente com meu mergulho atual no universo da neuromoda, que investiga como a roupa influencia nossos estados emocionais.
Manuela é minha companheira nessa descoberta — vive, testa, sente.
E, com isso, me ajuda a entender que vestir-se é também uma forma de regular as emoções, proteger a alma, contar quem somos naquele instante.

Pedi que ela compartilhasse um pouco desse olhar com você, leitor ou leitora da Essenciale.

Porque tem coisas que só se dizem assim — com afeto, tempo e verdade.

ENTREVISTA COM MANUELA DO MONTE

1. O que significa para você ressignificar o terno do seu pai?
“São muitas camadas. Minha avó paterna era costureira e esse tipo de movimento sempre foi muito natural pra nós. É ressignificar saudade, celebrar memória e seguir uma tradição.”

2. Como a moda afetiva se manifesta no seu dia a dia?
“Através da escolha de peças que me trazem conforto, remetem histórias e me representem de verdade. Tanto visualmente como em consciência de consumo.”

3. Você e Amanda compartilham roupas há anos. Como isso te impacta?
“É um exercício lindo de confiança, parceria, desapego e descoberta. Aprendi a me ver em peças que antes eram dela, e ela em peças que já foram minhas. Amanda me confiou peças que eram da sua mãe, isso não tem preço.”

4. Como é para você garimpar peças em brechós?
“Além de ampliar minhas possibilidades de escolha do que vestir, é renunciar às práticas destrutivas da indústria da moda.”

5. Moda sustentável ainda é resistência. Qual conselho você daria para quem quer começar?
“Comece aos poucos. Procure não se deixar levar pela falsa necessidade da última modinha. Tente não adquirir tecidos sintéticos, leia as etiquetas, reuse, troque com as amigas, visite os brechós da sua cidade. Cada escolha faz diferença. E quanto mais afeto a gente coloca, mais sentido faz.”

Em tempos de excesso, a simplicidade se torna revolucionária.
Em tempos de descarte, a permanência é um ato político.
E em tempos de pressa, vestir-se com intenção é quase uma poesia.

Seguimos, então, garimpando histórias.
Até a próxima edição — com mais tramas de afeto, consciência e identidade.

Fotos: Marlon Carvalho
Saia de Crochê: Maria do Mar
Produção: Amanda Carvalho – Brechó Pandora

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