O Tempo em Camadas

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Em 2025, escrevi para entender o tempo e ao escrever, percebi que todas as histórias tão distintas à primeira vista falavam da mesma matéria: permanência, memória e escolha.

Quando Manuela do Monte ressignificou o terno que pertenceu ao pai que partiu, não escrevi apenas sobre moda sustentável. Escrevi sobre luto, afeto e continuidade. Um terno atravessado pela ausência encontrou novo corpo, novo gesto e novo significado. Vestir aquela peça foi um ato de presença e também de elaboração. A moda, ali, deixou de ser consumo para se tornar linguagem emocional.

O cinema atravessou o ano como território de identidade. Ao escrever sobre O Agente Secreto, filme brasileiro que chegou a Cannes levando o frevo como pulsação estética e cultural, registrei mais do que um feito internacional. Registrei a força da autoria, da originalidade e da identidade brasileira em um espaço historicamente restrito.

O frevo, dança de rua e resistência, cruzou o tapete vermelho sem pedir licença.
Essa mesma pulsação esteve presente em Chorume, filme do canoense Cássio Nascimento, exibido no Labraff, em Orlando. Uma narrativa nascida fora dos grandes eixos, reafirmando que o local também é universal quando nasce do território e da verdade.

Voltar o olhar para os territórios foi inevitável. Escrevi sobre a cultura de São Leopoldo, sobre Canoas, sobre o Mercado Público e sobre o chão que sustenta a vida cultural longe dos grandes centros.

No enredo da escola de samba Portela para o Carnaval de 2026, o Bará do Mercado Público de Porto Alegre surge como símbolo de proteção, ancestralidade e circulação. Cultura também é espiritualidade, resistência e celebração coletiva.

A memória voltou a ocupar espaço quando escrevi sobre Marcos Breda e sua reconexão com o pai na Base Aérea de Canoas. Um lugar físico transformado em território emocional. Porque há espaços que guardam histórias que só o tempo e a escuta permitem acessar.

A moda retornou como reflexão sobre neuromoda e sobre o gesto consciente de repetir roupas. Repetir, hoje, é um posicionamento. É escolher vínculo em vez de descarte, permanência em vez de excesso. Assim como no trabalho de Luciano Vidigal e do Nós do Morro, onde criar é sustentar processos, relações e futuros possíveis.

A maternidade atravessou a escrita. Ao contar sobre a retomada da vida profissional da atriz Karen Júlia após a maternidade, escrevi sobre transformação. Voltar não é retornar ao mesmo lugar, mas inaugurar outro com um corpo que mudou, um tempo que se reorganizou e um olhar mais atento ao essencial.

Também escrevi sobre a voz de Chico Chico, que carrega herança e invenção na mesma respiração. Sobre memória afetiva, sobre continuidade, sobre seguir criando sem apagar a origem.

Cultura não é ruptura: é escuta consciente do que veio antes.
Em algum momento, escrevi sobre mim. Porque comunicar é se implicar. Não existe jornalismo cultural verdadeiro sem envolvimento.

Cada texto foi um convite silencioso ao leitor: observar com mais cuidado o que veste, o que consome, o que escolhe preservar.

Se existe um fio que costura tudo o que escrevi em 2025, ele se chama cuidado.
Cuidado com a memória.
Com o território.
Com o corpo.
Com o tempo.

Encerrar o ano escrevendo sobre isso é um gesto de responsabilidade e de gratidão!

Pela escuta, pela troca e pela possibilidade de construir narrativas que não se esgotam no imediato.

Que 2026 nos encontre atentos.
Vestindo histórias com sentido.
Criando com consciência.
Vivendo com mais presença do que excesso.
Porque no fim, o que permanece não é o que grita é o que ecoa.

Edição: Isabel Kurrle

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