Fui aos dois shows do Oasis no Brasil. Fui porque, de tempos em tempos, a vida nos pede algumas coisas para a gente se lembrar de quem não queremos deixar de ser.
O primeiro show estava planejado. Ingresso comprado com antecedência, viagem marcada,tudo programado. E foi lindo. Mas, pasme, não foi o suficiente. E então, num impulso que não negocia com a razão, e também graças à sorte da Ticketmaster ter magicamente liberado uma nova leva de ingressos, comprei o ingresso para o segundo show.
No mesmo instante. Sem pensar em logística, sem pensar no cansaço, sem pensar no amanhã. Apenas a vontade pura de sentir.
E ali, no meio da multidão, percebi o porquê. A vida da gente anda rápida demais. A gente envelhece sem perceber, amadurece quase sem querer, e vai encaixando tudo na nossa agenda, nos nossos compromissos, nas nossas carreiras.
Até que um dia a gente vive algo diferente. E lembra que viver também é se permitir ser absurdo, ser imperfeito. E que sentir, às vezes, é melhor que pensar.
No segundo show, quando tocou Live Forever, eu entendi tudo. O arrepio, a urgência de viver. Aquilo não era sobre o Oasis, embora ajudasse muito. Era sobre mim. Sobre mim, o guri que nasceu no Brasil jurando que era de Manchester, que queria viver pra sempre, que não conseguia controlar as emoções. E naquela noite ele falou de novo comigo. Esse guri olhou para tanta gente tão emocionada quanto ele, de tantas histórias diferentes, mas ali tão parecidas.
Parece bobeira dizer que aprendi alguma coisa num show, mas eu aprendi. Eu fui aos dois shows e entendi que a vida acontece aqui. Ela é feita desses instantes em que a gente decide ser vivo, verdadeiramente vivo. Em que lembramos que ainda dá tempo, sempre dá tempo, de sentir um pouco mais.
E nada, absolutamente nada, substitui essa sensação. Esses são os momentos que dizem que ainda dá tempo de sentir mais. Ainda dá tempo de ousar. Ainda dá tempo de se espantar com o próprio coração. Eu me emocionei em várias canções, mas uma em especial me surpreendeu.
Não imaginava que Talk Tonight, tão singela perto dos hinos habituais, me emocionaria tanto. “I wanna talk tonight, about how you saved my life.” A música me acertou em cheio.
Há músicas que falam com a gente. Essa falou comigo. Falou das noites em que a gente precisa de alguém, das conversas que nos salvam, de que a presença é o maior ato de amor que se pode fazer.

E, no fim das contas, toda a emoção compartilhada por centenas de milhares de pessoas nas duas noites era sobre isso. Sobre o que a gente sente, o que a gente ama, as pessoas que a gente amou, as que a gente ainda vai amar. É muito louco como uma banda consegue fazer a gente sentir tudo isso, né?
Estar vivo é, no fim das contas, isso: ir ao show da banda que você ama, encontrar amigos, chorar na sua música favorita, lembrar de pessoas, pensar em tudo que a vida nos oferece.
No fim, é se sentir vivo, sentindo. Porque a magia de estar vivo é que, quando a gente escolhe viver isso, por um instante, a vida nos escolhe de volta.