Poucos artistas sofreram tanto com a mudança dos ventos culturais quanto Paul McCartney nos anos 80. Entre os muitos paradoxos da vitoriosa carreira solo de Paul, talvez o maior seja a facilidade com que ele parece ser julgado pelo romantismo e pela leveza.
Em 1983, quando lançou Pipes of Peace cachimbo da paz, Paul já era visto como um artista acomodado em sua própria doçura pop, um pecado grave em tempos de pós-punk, new wave e sintetizadores.
O disco, irmão gêmeo de Tug of War (gravado nas mesmas sessões com George Martin), apesar de ter sido um sucesso comercial arrebatador, teve críticas pesadas (e injustas) nesse sentido, a exemplo de Pipes of Peace.
O álbum abre com a faixa-título, uma balada pacifista que fala muito do espírito da Guerra Fria. O clipe, com Paul em dois papéis soldados inimigos que se encontram no meio da trincheira foi interpretado como uma reedição de Ebony and Ivory, uma tentativa de simplificar dilemas difíceis. Uma baita idiotice da crítica, porque é puro humanismo pop.

Foto : Paul MacCartney – Crédito: Google
Logo depois, Say Say Say, dueto com Michael Jackson, mistura funk e melodia, criando um baita hit. A composição é uma parceria dos dois, e conhecendo bem as composições de ambos, é fácil perceber qual parte é mais de Michael, mais funk, mais Motown e qual é mais de Paul, mais melódica, mais pop.
Há em Pipes of Peace uma tentativa genuína de diálogo com a sonoridade da época. The Other Me e Keep Under Cover trazem arranjos eletrônicos discretos, baixo em destaque na mixagem e bateria eletrônica, com fortes sinais de que Paul prestava atenção às mudanças ao redor, ainda que sem abrir mão de identidade.

Foto: Albúm lançado em 1983 – Crédito: Google
So Bad, por sua vez, é puro romantismo em estado bruto, com vocais que lembram os anos 60 filtrados pela sensibilidade de um artista que já tinha passado por tudo.
O que a crítica da época chamou de falta de ambição ou comodismo talvez fosse, na verdade, serenidade. Paul, muito embora sempre tenha sido considerado um cara moderno, sempre atento ao novo e sempre, até hoje, nos anos 2020, fazendo discos em linguagens contemporâneas, não queria competir com o novo. Queria abraçar o novo dentro da sua estética.
Queria continuar escrevendo canções, e isso, nos anos 80, soava quase revolucionário.
Ouça Paul McCartney. Ouça o otimismo!
Pipes of Peace
Edição: Isabel Kurrle