O dia 11 de outubro de 2025 entrou para a história do esporte mundial não apenas como uma data mas como um marco.
Em Las Vegas, sob os holofotes do palco mais cobiçado do fisiculturismo, o brasileiro Ramon Rocha Queiroz, o “Dino”, acreano de 30 anos, ergueu o troféu de Mr. Olympia, tornando-se o primeiro representante da América Latina a conquistar o título absoluto da categoria Classic Physique. Essa vitória, porém, é muito mais do que o ápice de uma carreira; é o desfecho de uma jornada épica forjada na adversidade, longe dos centros de excelência do esporte, no coração da Amazônia.
As Raízes Acreanas: Forjado na Adversidade
Nascido em Rio Branco, no Acre, em 1995, Ramon Dino não teve um caminho pavimentado. O estado, conhecido por sua imensidão verde e por estar distante dos grandes eixos econômicos do país, apresentava uma realidade dura para quem sonhava alto no esporte. A falta de infraestrutura especializada, a dificuldade de acesso a suplementos de qualidade e a carência de patrocínios significativos foram obstáculos constantes.
Dino começou sua jornada na musculação ainda adolescente, inicialmente buscando apenas um condicionamento físico melhor. Sua genética única, com uma cintura extremamente fina e um “flare” (alargamento) dorsal excepcional, logo chamou a atenção.
No entanto, potencializar essa genética exigia sacrifícios que iam além do treino. Em diversas entrevistas, ele e seu irmão e coach, Jonathan Rocha, relataram as dificuldades financeiras.
Havia momentos em que a família precisava se unir para custear a alimentação específica – uma quantia enorme de frango, batata-doce e ovos – e os suplementos básicos.

A “necessidade” no Acre, portanto, não era apenas falta de recursos, era uma barreira geográfica e logística. Tudo era mais difícil e mais caro. Essa realidade moldou em Dino uma resiliência mental incomparável. Enquanto muitos atletas em países desenvolvidos tinham acesso a tudo, ele aprendeu a extrair o máximo do mínimo, a valorizar cada grama de proteína e a transformar a limitação em um combustível para a superação.
Os Passos Rumos ao Topo do Mundo
A escalada de Dino foi metódica e incansável:
1. Domínio Nacional e Sul-Americano: Primeiro, ele dominou completamente o cenário brasileiro e sul-americano, tornando-se uma lenda local e provando que o talento podia brotar em qualquer solo.
2. A Virada Internacional: O Pro Card (2020): A classificação para o status de atleta profissional da IFBB (o “Pro Card”) foi o passaporte para o mundo. Conquistado em 2020, foi a confirmação de que seu físico tinha qualidade para competir com os melhores.
3. Ascensão no Circuito Profissional: Com uma dedicação inabalável e a gestão visionária de seu irmão Jonathan, Dino começou a acumular vitórias no circuito profissional. Cada competição era um degrau e sua presença no palco chamava a atenção pela estética clássica e simetria quase perfeita.
4. O Campeonato e a Fome do Ouro (Mr. Olympia 2022-2024):A consagração inicial no Olympia veio com o quarto lugar (2024) uma colocação espetacular que imediatamente o colocou como principal ameaça aos dominadores da categoria. Esteve perto, sentiu o gosto do quase e isso apenas aumentou sua fome. A cada ano que concorria ele voltava maior, mais seco e mais confiante. A derrota não o derrubava; era apenas um lembrete do que precisava ser feito.

Finalmente a Conquista Histórica: 11 de Outubro de 2025
O Mr. Olympia de 2025 foi palco de uma batalha épica, do outro lado, estavam os melhores do mundo, incluindo o então campeão mas a noite de 11 de outubro pertencia a Dino.
Quando subiu ao palco, apresentou a sua melhor forma de todos os tempos: Conhecido como o “Dinossauro do Acre”, Ramon apresentou um shape harmônico, volumoso e refinado, confirmando toda a expectativa criada ao longo de sua preparação, músculos densos com veias saltadas, condição corporal impecável e uma secura que destacava cada detalhe muscular e claro, sua inconfundível cintura fina que realçava a amplitude de seus dorsais e ombros. A pose obrigatória de “vacuum” – um marco da Classic Physique – foi executada com uma maestria que arrancou gritos da plateia.
Era a representação pura do fisiculturismo clássico, uma homenagem aos lendários do passado mas com um nível de detalhamento moderno.
Quando o locutor anunciou “Ramon Dino” em primeiro lugar, a emoção foi indescritível.
O dinossauro gentil do Acre, visivelmente emocionado, abraçou seu irmão e ergueu o troféu não apenas para si mas para todos que acreditaram em seu sonho impossível.

Em entrevista pós-titulo do Mr. Olympia 2025, Ramon Dino abriu o coração:
“Eu sempre mantive minha crença em Deus, pedia força a Ele para seguir na caminhada. Fui continuando, fazendo minha parte e acreditando no meu sonho… e no final, deu certo.
É claro que a gente pensa na possibilidade de perder. Num top 5, qualquer um pode ser campeão se chegar bem no dia. Mas aquele dia foi nosso. Eu me preparei por muito tempo para aquela hora, e Deus reservou aquele momento para a gente.”
Essa vitória simboliza o triunfo da perseverança sobre as circunstâncias. É a prova de que origem não é destino e que, com trabalho duro, uma família unida e uma fé inabalável, mesmo um menino do interior do Acre pode conquistar o mundo.
Edição: Isabel Kurrle.