“Da Rua Grande ao Teatro Municipal, a cidade reafirma sua vocação cultural, acolhendo gerações de artistas e públicos.”
São Leopoldo entende, desde os anos 70, que a arte é essencial. Educadores e professores visionários abriram caminhos para que a cultura ocupasse as escolas, as ruas e o coração da cidade.
Na juventude, muitos de nós encontramos na Rua Grande (Avenida Independência) o cenário de encontros e noites inesquecíveis. Uma geração antes já se reunia em espaços que hoje moram na memória coletiva: 356, Manara, Factory, Marrakesh. Lugares que fizeram história, não apenas para o capilé, mas para jovens de toda a região.
Eu mesma cheguei a São Leopoldo há 17 anos. Conheci o pai dos meus filhos no Bar do André, território de acolhimento e de boemia, comandado pelo André e pela inesquecível Márcia. Ali a vida pulsava: artistas, aspirantes, músicos e amigos encontravam espaço para partilhar festa, poesia e resistência.

Sempre digo: São Leopoldo é a cidade com mais músicos por metro quadrado. Diferente de tantas outras, respira música, literatura, teatro. Respira arte.
Recentemente, a Secult abriu edital para ocupação do Teatro Municipal. O movimento que nasceu foi lindo: espetáculos locais lotando o espaço recém-revitalizado, devolvendo à cidade algo fundamental, o sentimento de orgulho e pertencimento.
E foi justamente nesse palco que, no último 8 de agosto, tive o privilégio de assinar a Direção Artística do espetáculo “Samba da Minha Terra”, ao lado da Direção Executiva de Daiane Fontes. Com apoio do Sesc, o projeto reuniu músicos que são parte da alma cultural da cidade, João Maurício, Douglas Flois, Xipa Baiano, Bruno Bruno, Luciano Saraiva, Jhuja Quinté e Maurício Costa embalando o público com uma verdadeira ode ao samba e celebrando Lupicínio Rodrigues, nosso eterno sambista gaúcho.

Tudo foi pensado com cuidado: os figurinos criados por mim, Amanda Andressa, dialogavam com a identidade da cena; a cenografia técnica de Rafael Lhor trouxe profundidade; a sonorização de Leo Sturmer e a iluminação de Vivian Quadros criaram atmosferas potentes; e os registros sensíveis de Caroline Bauer eternizaram a noite. Uma produção feita de afeto, profissionalismo e pertencimento.
O grupo Samba do Bloco nasceu no Espaço Cultural Ana Terra, território fértil de cultura, que diariamente abre portas para as mais diversas manifestações. Ali reencontramos o acolhimento que mantém a arte viva.

Ver a cidade se mover com apoios, leis de incentivo como a Lei Paulo Gustavo e a Lei Aldir Blanc, e a força dos coletivos culturais, é acreditar que a arte salva, transforma e nos devolve humanidade.
Que os artistas sigam de mãos dadas, menos movidos pelo ego e mais pela coletividade. Que o público continue a se reconhecer nesses encontros. E que toda cidade tenha o direito de um teatro municipal, porque ele transforma muito mais do que a cena: transforma vidas.

Eu moro em Canoas, mas meu coração também é de São Leopoldo, pelo carinho, respeito e admiração a todos que há décadas fazem da cultura um ato de resistência e amor.
Fotos crédito: Caroline Bauer