A Nave que Nos Ensinou a Sonhar

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A primeira música que cantei na vida foi Doce Mel, talvez ali tenha começado uma história que eu ainda não sabia que carregaria por toda a vida.

A Xuxa sempre foi a minha maior inspiração artística, desde pequeno, eu não tinha outra referência. Havia apenas uma televisão bem pequena, daquelas antigas, quadradas, que parecia abrir uma janela para outro universo.

Quando eu ia à casa da minha prima, ela tinha um disco da Xuxa, acho que cheguei a quase gastar aquele vinil de tanto ouvir cada faixa.

Eu não entendia por que amava tanto tudo aquilo. Hoje eu entendo, basta assistir a alguns trechos do novo show para me emocionar profundamente. Vejo milhares de pessoas felizes por viverem a honra de estar perto da maior artista brasileira de todos os tempos: uma mulher que influenciou gerações, inspirou artistas, revolucionou a música, a televisão, a estética visual e levou a cultura brasileira para o mundo.

Xuxa atravessou fronteiras, idiomas e gerações, conquistou fãs em diversos países e se tornou um fenômeno que ultrapassa qualquer estatística.

Foto crédito: 4Imagens/Getty Images

Por isso, críticas pequenas sobre uma roupa ou um figurino dizem muito mais sobre quem as faz do que sobre ela. A verdade é simples: ela entregou cenário, figurinos, uma nave, uma experiência inesquecível, lotou o primeiro estádio e praticamente esgotou os ingressos dos demais shows.

Isso não é um delírio coletivo, é o encerramento de um ciclo para milhões de crianças que cresceram com ela. Principalmente para muitas pessoas LGBTQIA+, que, como eu, ainda não conseguia explicar por que se sentia diferente.

Eu não me via representado em lugar nenhum mas havia uma mulher dizendo que era possível imaginar, brincar, acreditar e sonhar.

Talvez por isso tantos fãs da Xuxa façam parte da comunidade LGBTQIA+. Basta olhar os estádios, os relatos nas redes sociais e os influenciadores compartilhando a emoção de finalmente realizar um sonho de infância.

Muitos como eu, não tiveram condições de assistir a um show quando era criança. Agora adulto, finalmente posso viver aquilo que parecia impossível.

Imaginar continua sendo o lugar onde nossa criança interior é respeitada. E a arte continua sendo o espaço onde a autenticidade resiste, acho que a Xuxa escolheu exatamente o momento certo para fazer essa despedida.

Vivemos uma época em que o mundo parece cada vez mais duro, menos empático e menos disposto a sonhar.

E ela faz justamente o contrário: devolve o encantamento, lembrando que o amor, a fantasia e a imaginação ainda têm lugar. Também mostra a força que possui aos 63 anos.

Quem ainda não compreendeu a dimensão da Xuxa talvez simplesmente não tenha percebido o impacto que ela deixou na cultura brasileira e na vida de milhões de pessoas.

A nave está fazendo seu último voo mas ela não representa apenas uma despedida, representa um convite para celebrarmos tudo o que mudou desde os anos 80 e tudo o que ainda pode mudar.

As crianças que antes não se viam em lugar nenhum encontraram coragem para existir.

Hoje ocupam espaços, representam outras pessoas e abrem caminhos para novas gerações.

Foto Crédito: divulgação

Por tudo isso, não consigo olhar para a Xuxa apenas como uma artista, olho para ela com gratidão por ter me ensinado a sonhar, acreditar, a querer, a poder e a conseguir.  

Texto: Cassiano Pellenz

Foto capa crédito: Divulgação

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