Hipnose Clínica: Para além dos mitos

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Desmistificando a ferramenta terapêutica quase mágica mas ainda incompreendida

A hipnose é um estado de consciência caracterizado por atenção altamente focada, neste estado, há a diminuição do diálogo interno, redução da reatividade emocional e aumento da capacidade do cérebro de integrar emoção e cognição.

E é neste estado, que torna-se mais fácil modificar padrões aprendidos, promover reconsolidação de memórias e favorecer a neuroplasticidade, potencializando os resultados terapêuticos.

Ainda na atualidade, a palavra hipnose mencionada, faz com que muitas pessoas imaginem cenas como um pêndulo que balança, pessoas perdendo o controle sobre si mesmas, dentre outras coisas.

Essa imagem, fora construída ao longo de décadas pelo entretenimento, porém está muito distante da realidade da hipnose clínica, utilizada hoje como ferramenta complementar por diversos profissionais da saúde para auxiliar no tratamento emocional de pessoas.

Agindo com muita velocidade em diversos aspectos e é por isto que é hora de separar o espetáculo da ciência.

Vamos ao que interessa, o que é afinal, a hipnose clínica?

A hipnose clínica é um estado natural de atenção altamente concentrada, acompanhado de relaxamento físico e mental, no qual a pessoa, diferente do que muitos pensam, permanece consciente durante todo o processo, mantendo a sua capacidade de escolha.

Em outras palavras: participa ativamente do processo, ninguém faz alguém hipnotizado agir contra seus valores, princípios ou vontade.

Para que ela pode ser utilizada?

Quando integrada a um tratamento conduzido por profissional habilitado, a hipnose pode auxiliar em diversas situações:

* ansiedade;

* fobias;

* estresse;

* traumas psicológicos;

* dores crônicas;

* insônia;

* hábitos indesejados, como tabagismo;

* fortalecimento da autoestima;

* preparação para procedimentos médicos;

* manejo da dor e da ansiedade em tratamentos odontológicos.

É importante compreender que a hipnose não é uma terapia em si mas uma ferramenta que potencializa intervenções terapêuticas baseadas em conhecimento científico.

Quem pode utilizar a hipnose?

No Brasil, a utilização da hipnose clínica é reconhecida por diversos conselhos profissionais quando empregada dentro da área de competência de cada profissão.

Entre eles estão:

* Psicologia;

* Medicina;

* Odontologia;

* Fisioterapia;

* Enfermagem;

* Fonoaudiologia;

* Terapia Ocupacional, entre outras profissões da saúde que possuem regulamentação específica.

Isso significa que a hipnose não é uma prática isolada. Ela deve fazer parte da atuação profissional, respeitando princípios éticos, limites técnicos e evidências científicas.

Assim como procuramos um médico quando sentimos dor física, cuidar da saúde emocional também faz parte do autocuidado.Porque o maior poder da hipnose nunca foi controlar mentes.

É ajudar pessoas a retomarem o controle sobre a própria vida, entenda a ferramenta no cérebro.

O que acontece ?

O que acontece é uma mudança na forma como diferentes redes cerebrais interagem, permitindo que a pessoa observe emoções e memórias com menos reatividade automática e maior capacidade de reorganização cognitiva.

A hipnose não “desliga” o cérebro, exames de Neuro imagem (fMRI, PET Scan e EEG) demonstram que ela reorganiza seu funcionamento.

Os principais fenômenos observados são:

1. Diminuição da atividade da Rede de Modo Padrão (Default Mode Network)

A chamada Default Mode Network (DMN) é responsável por grande parte do diálogo interno:

* pensamentos repetitivos;

* preocupação com o passado;

* ansiedade sobre o futuro;

* autocrítica;

* ruminação.

Durante a hipnose, essa rede reduz sua atividade.O resultado é que a pessoa deixa de ficar presa ao “barulho mental”, despreocupa-se, e passa a direcionar sua atenção para a experiência proposta pelo terapeuta.

2. Maior foco atencional

Uma das características mais marcantes da hipnose é o aumento da atenção seletiva.

Áreas do córtex pré-frontal passam a concentrar recursos cognitivos em um único objetivo.

É semelhante ao estado de profundo envolvimento que ocorre quando alguém está totalmente concentrado em um livro, em uma música ou dirigindo por um caminho conhecido.

3. Menor reatividade emocional

É aqui que entra a relação com as emoções.A principal estrutura envolvida é a amígdala cerebral, responsável por detectar ameaças e gerar respostas emocionais rápidas, como medo, ansiedade e defesa.

Durante a hipnose clínica, estudos mostram que, em muitas pessoas, ocorre redução da reatividade da amígdala, principalmente quando o objetivo é trabalhar ansiedade, medo ou dor, isso não significa que a emoção desapareça.

Significa que ela deixa de comandar automaticamente o comportamento.A pessoa continua acessando a memória emocional, porém consegue observá-la com maior segurança e menor intensidade.

Esse é um dos motivos pelos quais muitos pacientes conseguem falar sobre acontecimentos difíceis sem reviver toda a carga emocional que antes os dominava.

4. Maior comunicação entre emoção e razão

Talvez este seja o aspecto mais importante terapeuticamente.

O cérebro possui sistemas especializados.

De maneira simplificada:

* a amígdala reage rapidamente às emoções;

* o córtex pré-frontal avalia, interpreta e toma decisões.

Em situações traumáticas ou de ansiedade intensa, a amígdala costuma “assumir o comando”, reduzindo a participação do raciocínio consciente.

Na hipnose acontece o contrário.O córtex pré-frontal permanece ativo e consegue exercer maior modulação sobre as respostas emocionais.Isso permite reinterpretar experiências antigas sob uma nova perspectiva. Em vez de apenas sentir o medo, o cérebro passa a compreender o medo e é aqui que “tudo acontece”!

5. Aumento da neuroplasticidade funcional

A hipnose favorece um estado em que o cérebro se torna mais flexível para estabelecer novas conexões.

Em termos simples:

* crenças podem ser reavaliadas e reconstituídas;

* respostas emocionais podem ser modificadas;

* novos padrões comportamentais tornam-se possíveis.

A hipnose cria um ambiente cerebral mais favorável para que o aprendizado aconteça.

E por que isso funciona tão bem terapeuticamente?

A maior parte do nosso comportamento é automática.

Quando um evento traumático acontece, o cérebro cria associações rápidas:situação → emoção →comportamento.

Essas conexões ficam armazenadas principalmente em sistemas de memória implícita.

Posteriormente, basta um estímulo semelhante para que todo o circuito seja ativado novamente.

Na hipnose, o paciente consegue acessar essas memórias em um estado de maior segurança fisiológica.Isso reduz a resposta automática de defesa e permite que o cérebro realize aquilo que chamamos de reconsolidação da memória.A memória não é apagada.

Ela é “reescrita” emocionalmente, o fato continua existindo.

O sofrimento associado a ele pode diminuir significativamente, a dor emocional deixa de dominar o cérebro

Uma boa forma de explicar isso ao leitor é dizer que: a hipnose não elimina as emoções, ela diminui a intensidade com que elas assumem o controle do cérebro.

Quando a resposta emocional automática é reduzida, a pessoa consegue pensar com mais clareza, atribuir novos significados às experiências e desenvolver respostas mais saudáveis.E é aqui que mora agora o desejo de viver o processo.

Uma vez compreendendo como ela funciona, e o bem que ela pode fazer, é natural que mude a sua forma de pensar e de agir com relação a ela.

Seja bem-vindo(a) a uma ferramenta que pode ser a chave para transformar as suas maiores limitações.

(Michelle Pajak – Psicóloga – Hipnólogo e Sócia-Diretora da SHD – Ser Humano Desenvolvimento)

Fotos crédito: Magnific

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