Você acha que gente boazinha vai longe?Não estou falando de gente boa o tempo todo porque ninguém consegue ser bom o tempo inteiro.
Estou falando daquela pessoa que aceita tudo o que os outros dizem, que permanece calada, que se faz de menos inteligente do que realmente é para conseguir suportar aquele chefe horroroso que inventa leis e regras totalmente desnecessárias.
Aquela pessoa que não critica ninguém, que não fala nem bem nem mal, que fica sempre intacta, ilesa, em cima do muro. Não se posiciona sobre nada, com medo de perder a promoção.
Com medo de perder o emprego, com medo de perder os amigos, com medo de desagradar.
Gente boazinha demais vai até onde? eu fico pensando que alguns dos grandes personagens das biografias e da história, inclusive aqueles que muitas vezes aparecem como grandes vilões nos filmes que assistimos, conseguiram provocar transformações enormes justamente porque não aceitaram simplesmente permanecer dentro daquilo que estava estabelecido.
Isso não significa que eu ache que crueldade seja necessária para transformar o mundo. Muito pelo contrário mas acredito que bondade demais, quando confundida com submissão, acaba virando um tapete para que os outros pisem.
E nós não nascemos para isso, talvez muito disso esteja na tradição da forma como fomos educados. Somos ensinados desde pequenos a obedecer, repetir, reproduzir.
Somos ensinados a fazer aquilo que já foi determinado mas nem sempre somos estimulados a criar e eu não consigo acreditar nessa proposta enquanto artista.
Alguém vai me dizer que eu tenho que levantar o braço até ali, fazer determinado movimento, virar para determinado lado?
Se for uma coreografia, tudo bem, existe um grupo que ensaiou aquilo, existe uma linguagem construída coletivamente. Todo mundo precisa fazer o mesmo movimento porque é justamente essa repetição que constrói aquela obra mas a vida não é necessariamente uma coreografia.
Quando se trata de pensar, de escolher, de criar, de ter opinião, de defender aquilo em que você acredita, eu não quero viver seguindo movimentos previamente marcados.

E aí chegamos à pergunta: o que é a bondade?
Há alguns anos, minha psiquiatra me indicou um livro para que eu lesse. Tratava-se de O Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, de André Comte-Sponville, foi um daqueles livros que fazem a gente parar diante de algumas palavras que parecem simples e perceber que talvez nunca tenhamos pensado nelas de verdade.
A bondade não é ficar calado, não é aceitar tudo, não é permitir que façam de você um tapete, bondade é uma disposição para fazer o bem mas isso não significa abrir mão da coragem, da justiça ou da liberdade.
E talvez seja justamente aí que esteja o erro de muita gente: confundimos bondade com obediência.
Eu não quero ser uma pessoa boazinha, quero ser uma pessoa boa e existe uma diferença enorme entre as duas.A pessoa boazinha pergunta:“O que esperam que eu faça?”
A pessoa boa talvez pergunte:“O que é certo fazer?”
Às vezes, fazer o certo vai desagradar a muitas pessoas, vai custar amizades, vai fazer gente virar a cara, fazer gente falar mal de você.
Vai fazer pessoas que nem sequer conhecem você criarem um estereótipo para justificar o próprio ódio, às vezes até o preconceito diante daquilo a que não têm acesso.
Porque sim, muitas pessoas gostariam de ter acesso a você e não têm e isso também pode se transformar em ódio.
Ódio e amor, às vezes, estão mais próximos do que imaginamos mas isso é para outro capítulo. Fica para outro texto, outro artigo, outra crônica.
Porque a bondade verdadeira não é aquela que nos mantém intactos, é aquela que faz a gente continuar humano, lutando, convictos e incansáveis, mesmo quando precisamos olhar para alguém e dizer: aqui, não!
Texto: Cassiano Pellenz
Foto de capa crédito: Magnific