Quando o tambor do sul ecoa no Rio: memória, arte e ancestralidade em cortejo azul e branco

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“O mistério do Príncipe do Bará: quando o Sul negro encontra a Sapucaí”

Em 2026, o Rio Grande do Sul vai desfilar no coração do Rio de Janeiro. A Portela  escola centenária e patrimônio do samba brasileiro anunciou um
}enredo que soa como tambor ancestral: “O Mistério do Príncipe do Bará – A oração do negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande”.

Custódio Joaquim de Almeida, o Príncipe Custódio, atravessou o Atlântico vindo do Benin e aqui fincou raízes espirituais que nunca foram arrancadas. Ele foi um dos grandes nomes que estruturaram o Batuque gaúcho, a matriz afro-religiosa que canta, dança e resiste em Porto Alegre, Pelotas, Rio Grande e tantos outros cantos do estado. Honrar Custódio, como fará a Portela, é devolver à história oficial o que sempre foi dela por direito: o protagonismo negro.

Num país que insiste em enxergar a negritude apenas entre o Recôncavo e a Sapucaí, este enredo propõe um outro mapa. Um mapa que revela que o Sul profundo nunca foi só chimarrão e estâncias, mas também territórios sagrados, batuques, terreiros e irmandades negras. Como a Sociedade Floresta Aurora, que nasceu em 1872 e até hoje segue como farol de resistência. Como o Mercado Público de Porto Alegre, onde Bará o orixá da comunicação e das encruzilhadas tem assentamento há mais de um século, lembrando que a cidade pulsa sobre a força invisível de seus ancestrais.

Na avenida, essa história vai virar música, beleza e reparação. Vai virar samba que enlaça o Sul e o Sudeste num gesto profundo de amor e reconhecimento. E quando a atriz Sheron Menezzes, gaúcha e portelense, pisa o solo do Mercado Público para evocar essa força, o que está em jogo vai além do espetáculo: é a afirmação simbólica do que nunca deixou de estar aqui.

Não sou preta, mas reverencio cada fio dessa herança. Reverencio porque a dignidade das culturas afro-gaúchas nos ensina que memória também se dança, que orgulho também se canta. O samba nunca foi apenas festa. Foi e sempre será território de cura e resistência.

Estarei esperando para assistir ao desfile e os comentários sempre certeiros e apaixonados do Milton Cunha, torcendo para que, além da beleza, possamos ver um Carnaval cada vez mais consciente com o planeta, com figurinos estilosos e abadás criativos que também carregem a consciência que o Carnaval merece.

Que a Portela nos traga essa lição.
Que o Rio Grande do Sul encontre, sob os refletores da Sapucaí, a própria voz que nunca calou.

Vai ter Batuque Gaúcho sim!

fonte: OGLOBO

fonte : OGLOBO

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