Quando inventaram o carro blindado, não foi por vaidade. Foi por medo. O primeiro surgiu nos anos 1930, para proteger banqueiros e chefes de Estado de possíveis ataques. Era a prova de que quando a ameaça se aproxima, a solução encontrada não é encarar o perigo de frente mas revestir-se de aço.
Blindar é colocar uma camada grossa entre o mundo e a nossa pele. É saber que uma hora algo pode acontecer. É viver em movimento, mas sem se expor. É a tentativa de dizer ao medo: “você pode estar por perto mas não vai me tocar”.
Só que a blindagem tem um detalhe curioso: ela nunca fala do inimigo, fala de quem se blinda. Mostra que há algo dentro que precisa ser protegido, seja poder, seja dinheiro, seja um segredo. Quem não tem nada a perder, certemente anda a pé, o vidro escurecido não revela apenas quem passa, revela também quem se esconde.
A gente observa esses carros blindados, muito parecidos, com pessoas muito parecidas os guiando, se reúnem em reuniões que as vezes, de tão secretas, jamais teremos notícia.

E assim seguimos, inventando blindagens para tudo: carros, corpos, corações, reputações. Como se fosse possível atravessar a vida sem rachaduras, sem feridas, sem perguntas.
Não dá para se blindar da dor, nem esperar plantar roseiras e colher bromélias.
Não dá para se blindar do tempo, nem esperar a hora certa, pois a gente não sabe se vai acordar vivo. Não dá para se esquecer jamais, da nossa força, das pessoas que se importam com a gente, do que realmente é certo fazer, pois nem a memória está blindada. Volta e meia ela nos trás um 1930, explicando 2025.
Mas a verdade é que por trás de cada blindagem, existe uma confissão: quem precisa tanto se proteger já se sente ameaçado.

Edição de Isabel Kurrle.