Dois anos após a maior tragédia climática da história do Rio Grande do Sul, uma pergunta continua presente: estamos nos preparando para o próximo evento extremo ou apenas reconstruindo o que foi perdido?
As enchentes de 2024 deixaram cicatrizes em centenas de municípios, transformaram paisagens e mudaram a vida de milhares de famílias.
Mas também deixaram um aprendizado importante: não basta reconstruir cidades. É preciso torná-las mais resilientes.
O debate sobre prevenção climática ganhou espaço nas universidades, nos governos, nas empresas e nas comunidades.
E não por acaso, especialistas alertam que eventos extremos tendem a se tornar mais frequentes e intensos nas próximas décadas, independentemente do nome do próximo fenômeno climático, o fato é que precisaremos estar mais preparados do que estávamos em 2024.
A boa notícia é que existem caminhos possíveis, um conceito que vem ganhando destaque em diversas partes do mundo é o das chamadas “cidades-esponja”.
A ideia é simples e ao mesmo tempo transformadora: permitir que as cidades absorvam melhor a água das chuvas por meio da ampliação de áreas verdes, recuperação de ecossistemas naturais, criação de parques, jardins de chuva e espaços permeáveis.

Não precisamos atravessar oceanos para encontrar inspiração, algumas cidades brasileiras já começam a adotar soluções baseadas na natureza para enfrentar eventos climáticos extremos.
Curitiba é reconhecida por transformar áreas sujeitas a alagamentos em parques urbanos que ajudam a reter a água das chuvas. No Rio de Janeiro, iniciativas inspiradas no conceito de cidades-esponja buscam ampliar áreas permeáveis e fortalecer a drenagem natural dos espaços urbanos.
No Rio Grande do Sul, algumas ações também apontam nessa direção, em Nova Santa Rita, áreas atingidas pelas enchentes de 2024 e classificadas como Áreas de Preservação Permanente estão recebendo mudas de árvores nativas. Mais do que uma ação ambiental a iniciativa representa uma mudança de olhar sobre territórios que precisam cumprir sua função ecológica para proteger pessoas e comunidades.

Árvores ajudam a reter água, proteger do solo, preservar a biodiversidade e reduzir impactos ambientais. Quando recuperamos áreas naturais, estamos também investindo em segurança, qualidade de vida e prevenção mas essa responsabilidade não é apenas dos governos.
Empresas podem incorporar a adaptação climática em suas estratégias de sustentabilidade, apoiar projetos de recuperação ambiental e incentivar a participação de colaboradores em iniciativas comunitárias.
As famílias podem contribuir preservando áreas verdes, destinando corretamente seus resíduos e participando das discussões sobre o planejamento das cidades onde vivem, gosto de acreditar que toda transformação começa com uma escolha.
A escolha de olhar para um problema e enxergar uma oportunidade a escolha de unir pessoas em torno de uma causa, a escolha de plantar uma árvore sem a certeza de que seremos nós a desfrutar de toda a sua sombra.

Talvez seja esse o maior ensinamento que ficou para o Rio Grande do Sul depois de 2024: o futuro não será construído apenas por governos, empresas ou especialistas. Ele será construído por comunidades que decidem agir.
E toda grande mudança assim como uma floresta, começa com uma pequena semente.
Texto: Cris Testa