Esperança em terra estrangeira: a jornada haitiana no Brasil

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Há 15 anos, um terremoto devastador abalou o Haiti mas não quebrou a esperança de um povo. Desde então, (mais de 150 mil haitianos) cruzaram fronteiras, mares e selvas em busca de um recomeço no Brasil (OBMigra, 2023). Destes, estima-se que cerca de 100 mil permaneçam no país em 2025 construindo raízes em todas as regiões. A cada passo, escreveram capítulos de coragem que hoje se entrelaçam com a história do Brasil. Eles vieram em busca de um futuro melhor e mesmo diante do preconceito e dos desafios linguísticos e culturais, transformam cada dia em uma prova viva de esperança e resiliência.

Cultura que transcende

Em São João Batista (SC) onde a foto (acima) foi tirada, existe uma comunidade ativa de haitianos. Eles trouxeram consigo não apenas sua força de trabalho mas também sua fé, otimismo e cultura. Na cidade, os haitianos possuem até uma igreja onde realizam seus cultos em crioulo haitiano, mantendo vivas suas tradições e fortalecendo os laços comunitários em terras brasileiras.

Educação e conhecimento: um testemunho

Um desses momentos marcantes ocorreu em uma escola de idiomas no centro de Porto Alegre (RS): em 2017, ao ministrar aulas gratuitas de português para imigrantes haitianos – essenciais para sua inserção no trabalho e cotidiano brasileiro – deparei-me com um desafio linguístico singular para garantir que todo o grupo fosse alcançado, precisei lecionar em três idiomas (inglês, espanhol e português) já que muitos falavam essas línguas como ponte para dominar o novo idioma, embora o crioulo haitiano (uma das duas línguas oficiais do Haiti) fosse sua língua materna.

Ali, conheci guerreiros de fé inabalável que haviam deixado um país devastado, alguns estavam no Haiti durante o terremoto de 2010 e perderam familiares e amigos. “Sabíamos que precisávamos seguir em frente com força e fé” confidenciaram, “era nossa forma de homenagear os que partiram” e buscar a nossa sobrevivência.

Quando perguntei sobre seus sonhos, a resposta foi unânime!

Trazer toda a minha família para o Brasil” alguns contavam, com orgulho misturado à exaustão que já haviam conseguido reunir parte dos parentes graças ao “suor de seus trabalhos”, mesmo em condições precárias. Encontravam na espiritualidade o alicerce para enfrentar até mesmo a xenofobia. Apesar dos relatos de discriminação e exploração, sua resposta era sempre a gratidão pelo acolhimento e pelas oportunidades – por mais desiguais que fossem, embora a maioria deles  possua ensino superior e qualificação profissional precisam se submeter a qualquer trabalho para se manterem.

Para mim, cada aula foi uma experiência profundamente gratificante: ajudar aquelas pessoas a se comunicarem melhor significava abrir portas para sua autonomia mas também descobri na prática o peso dessa responsabilidade – ensinar não era apenas transmitir verbos, era fornecer ferramentas para reconstruir identidades em uma nova pátria.

Vieram sozinhos, com o sonho de reconstruir vidas e reunir suas famílias. O que mais marcou foi sua resiliência traduzida em humanidade: apesar do sofrimento e das dificuldades, mantinham-se sempre sorridentes. Ao final de cada aula, vinham até mim com olhos brilhantes: “Muito obrigado, professora! apertando minhas mãos com uma reverência que falava mais que mil palavras – foram os alunos mais gratos e respeitosos que já encontrei.

Foto: Haitiano trabalhando como vendedor ambulante nas ruas do Brasil.

Direitos humanos e acordos internacionais

O Brasil, como signatário da Convenção da ONU de 1951 sobre Refugiados e seu Protocolo de 1967, assume a obrigação internacional de proteger refugiados. Esse compromisso foi internalizado pela Lei 9.474/1997, que define o estatuto do refugiado no país e serve de base para a proteção dos haitianos. A migração  colocou à prova o compromisso do Brasil com os direitos humanos internacionais. Após o terremoto de 2010, o país concedeu “vistos humanitários”.

Oportunidades em solo brasileiro 

Ganael Gary,  o primeiro haitiano no futebol gaúcho. A história de superação haitiana também ecoa nos gramados ele foi o primeiro jogador haitiano a ser contratado por um clube de futebol do Rio Grande do Sul, atuando nas categorias de base do Grêmio. Sua trajetória representa a busca de muitos jovens por um futuro melhor através do esporte. Atualmente, Ganael defende o Figueirense, em Santa Catarina, levando consigo a bandeira da perseverança haitiana.

Foto: Ganael, o primeiro jogador haitiano contratado por um clube de futebol do Rio Grande do Sul, com a camisa do Grêmio.

Legado de luta e luz

A imigração haitiana no Brasil é uma epopeia escrita com lágrimas e sorrisos. Quando meus alunos revelaram estar no Haiti durante o terremoto de 2010 honrando os perdidos através da coragem de recomeçar – entendi que sua resiliência vai além da sobrevivência: é um tributo coletivo. Das ruínas de Porto Príncipe às salas de aula em Porto Alegre, cada passo dessa jornada transforma luto em legado.

Enquanto eles transformam nosso chão em lar, nós redescobrimos o poder da fé que move montanhas, da gratidão que desarma o preconceito e da educação que vira ponte. O Haiti, agora também habita dentro do Brasil. O documentário ‘Haitianos – A Travessia’ (TV Brasil 2016) também registra de forma comovente esta saga de fé e superação.

Fontes

  • ONU Brasil: Relatório Migração e Direitos Humanos (2022)
  • OBMigra: Perfil Socioeconômico e Estimativas da População Haitiana no Brasil (2023-2025).

Disponível em: (https://www.obmigra.mj.gov.br)

TV Brasil: Documentário ‘Haitianos – A Travessia’ (2016)

  • OIT: Condições de Trabalho em Frigoríficos (2022)
  • MPT: Casos de Trabalho Análogo à Escravidão (2022-2023)
  • Lei 9.474/1997: Estatuto do Refugiado no Brasil

Contato: maestraisabeles@gmail.com

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