Incendiar a certeza

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A dúvida é um incômodo elegante. A dúvida é a escola da verdade. Não chega chutando a porta, ela entra descalça, silenciosa, senta-se no sofá e começa a reorganizar tudo. Move os móveis da lógica, troca os quadros da convicção, desafia o baralho da alma. E a gente ali, fingindo controle no jogo, enquanto ela acende um fósforo e observa tudo com olhos de quem sabe que o caos é um bom lugar para recomeçar. E faz o caos!

A dúvida é aquele ponto de interrogação que se pendura no final de uma frase afirmativa, sem pedir licença. Enfiada. Metida. É o sussurro que atravessa o grito, é o silêncio que interrompe o discurso inflamado, é o olhar atravessado no espelho que pergunta: será? É um artista que treina e treina e nunca se apresenta.

A dúvida chega na madrugada, enquanto a cidade dorme e os pensamentos fazem plantão. Como guardas solitários. Encosta-se na beira da cama e pergunta amor ou hábito? Coragem ou fuga? Verdade ou acomodação? Você não quer nem ouvir. E, antes que responda, já está vasculhando sua memória em busca de incoerências perturbadoras.

A dúvida tem um charme que a segurança jamais vai alcançar. Porque viver é mais do que levantar bandeiras, é saber quando baixá-las. É mais do que construir castelos: É saber quando deixá-los virar ruínas férteis. A ruína e a construção sao parecidas. Ou você ficou na dúvida? A dúvida não quer te destruir, quer te tirar do automático. E isso já é uma forma de renascimento. De uma construção ou de uma ruína?

Ela caminha com os artistas, sussurra nos ouvidos dos poetas, dança nas ideias dos que ousam. É o psiquiátra que levanta a saia do pensamento comportado. Quando alguém diz “é assim e pronto”, a dúvida sorri de lado e diz: “será que é mesmo?”.

E de repente, o mundo deixa de ser plano, a vida deixa de ser binária, polarizada, rosa e azul e as pessoas voltam a ser complexas e portanto: lindas.

A dúvida é a mãe da curiosidade, a avó da descoberta, a filha da inquietude. Vive numa casa sem tramelas onde os ventos entram com liberdade e as paredes são feitas de palavras que podem mudar. E vão. Quem a evita, se seca por dentro. Quem a abraça, aprende a se molhar na chuva da própria humanidade.

Então vamos duvidar? Duvidar da ordem, dos dogmas, dos amores prontos, das respostas fáceis. Vamos duvidar do caminho reto, da voz autoritária, do político santinho, dos paladinos, do que já vem embalado com manual de instrução. Daquilo que dizem é isso e ponto.

Vamos duvidar até fazer as perguntas certas. Vamos duvidar até o chão tremer, até o teto cair. Vamos duvidar até queimar os rótulos, derreter os moldes, rasgar os scripts,
Até os carros voarem.

Vamos duvidar até incendiar as certezas.

Cassiano Pellenz

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