Ney Matogrosso: à frente do tempo

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Assistir ao filme Homem com H é como abrir uma janela e sentir um vento que vem do futuro — mesmo sabendo que ele sopra há décadas. Ney Matogrosso não é apenas um artista. Ele é uma entidade que atravessou os tempos carregando no corpo e na voz aquilo que muitos ainda têm medo de ser: livre.

E que acerto foi escolher Jesuíta Barbosa para interpretá-lo. Aliás, mais do que interpretar ele incorpora. Há uma delicadeza felina e uma fúria contida no olhar que Jesuita empresta a Ney que não se ensaia, apenas se sente. É visceral. É bonito. É uma entrega. Não é atuação: é sintonia.

O filme não é só um retrato de Ney Matogrosso. É um espelho do Brasil que o viu nascer e tentou calar mas não conseguiu. Porque Ney nunca precisou levantar bandeira para ser político. Ele desafiou a lógica da masculinidade frágil com um brinco, um corpo seminu e um timbre de voz que não pedia licença. Ele se mostrou sem medo, em um país que sempre teve medo de quem se mostra.

E mesmo assim, lá estava ele. Brilhando nos palcos, provocando sem ser vulgar, encantando sem pedir permissão.

Homem com H nos lembra que Ney não veio ao mundo para se enquadrar. E isso é, por si só, revolucionário. Em tempos em que tudo é medido, calculado e julgado por filtros e métricas, ele permanece sendo o avesso do algoritmo. Ele canta o que sente, se move como quer, ama sem legenda.

E o que dizer da coragem silenciosa desse homem que nunca gritou, mas sempre foi ouvido? Que nunca se explicou, mas sempre foi entendido ou pelo menos respeitado, mesmo por quem não compreendia. Ney é um lembrete de que a liberdade assusta, sim. Mas também fascina. E salva.

Ver Jesuíta dar corpo a essa alma é ver o tempo se dobrar diante de nós. É perceber que o ontem de Ney ainda é o amanhã de muita gente. Que estar à frente do tempo não é apenas ousadia: é missão.

E talvez seja por isso que Ney nunca envelhece. Ele apenas continua.
Continuando.
Como só os eternos sabem fazer.
Imperdível ver o filme. Disponível na Netflix

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