O Astronauta de Canoas: Uma Viagem à Essência de Marcos Breda

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Na cidade onde nasceu, o ator Marcos Breda reencontra sua infância, sua família e a si mesmo em uma visita emocionante à Base Aérea de Canoas, dias após seu renascimento pessoal.

Nem toda homenagem é apenas uma celebração. Às vezes, ela nos conduz de volta à origem, ao que nos moldou, àquilo que permanece vivo mesmo sob as camadas do tempo.

Ao saber que o Festival de Cinema de Canoas homenagearia o ator Marcos Breda, minha curiosidade se acendeu. Descobrir que ele era canoense, nascido no Hospital da Base Aérea da cidade, foi uma surpresa que mudou tudo. A partir dali, surgiu em mim o desejo quase imediato de entender melhor essa história e de contar não apenas sobre o artista homenageado, mas sobre o homem, suas raízes, suas memórias.

Conseguir um espaço em sua semana lotada de compromissos parecia difícil. Mas quando a ideia de visitar o lugar onde ele nasceu tomou forma, tudo começou a se encaixar com uma naturalidade quase mágica, como se esse reencontro estivesse esperando para acontecer.

A visita à Base Aérea de Canoas foi muito mais do que uma pauta. Foi um mergulho íntimo no tempo. O hangar, ainda com a mesma arquitetura das décadas de 50 e 60, nos recebeu como uma cápsula viva. O cheiro de óleo ativou memórias profundas. O barulho distante das aeronaves ecoou como um som familiar. A atmosfera daquele lugar, mesmo transformada pelos anos, continuava sendo lar, mesmo que por instantes.

Foto crédito: Marlon Carvalho

Foi impossível não se emocionar ao vê-lo caminhar de novo por aqueles espaços. Ele se reconheceu. Reconectou-se. Era o homem olhando para o menino. O filho encontrando o pai através da memória.

E o momento se tornou ainda mais marcante por outro motivo: a visita aconteceu três dias após sua alta hospitalar, após meses de reabilitação por conta de um grave acidente de moto em 2022. Às vésperas de seu aniversário, aquele dia se revelou como um verdadeiro renascimento.

E ali estava ele: o astronauta de Canoas. Não por acaso. Foi assim que Marcos se via aos cinco anos, quando sua mãe, com criatividade e afeto, transformou um paraquedas descartado em uma fantasia improvisada. Vestido de astronauta, ele “estagiava” com o pai, o Tenente Siro Breda, que atuava na manutenção das aeronaves da Força Aérea.

Para mim, como jornalista, foi uma experiência transformadora. Mais do que contar uma história, eu participei dela. E hoje, entendo com clareza: essa história também se misturou à minha.

Agradeço à Força Aérea Brasileira por tornar possível essa visita, especialmente à Tenente Maiara, que nos acolheu com gentileza e sensibilidade.

Foto crédito: Marlon Carvalho

Naquele dia, entre aviões, memórias e silêncio, o menino astronauta voltou para casa. E tenho certeza de que, mesmo que um dia as palavras escapem, o corpo e a alma de Marcos Breda saberão onde pousar de novo.

Entrevista

1.Você nasceu em uma base aérea, cresceu com a figura paterna ligada aos céus, e anos depois se descobre apaixonado por astrologia. Vendo tudo isso em retrospecto… o que o céu representa para você?

R.: O céu sempre foi um lugar de maravilhamento para a criança que fui e o adulto que sou.

Desde muito pequeno eu era apaixonado por filmes de viagens espaciais, fotos de planetas, meteoros, galáxias e estrelas. Meu apelido era “astronauta”, claro, sempre com a cabeça no “mundo da Lua” como se costumava dizer.

A Astrologia me trouxe o entendimento de que o céu é um reflexo do que acontece aqui na terra e vice-versa.

Trata-se da Segunda Lei do Hermetismo: o que está em cima é como o que está embaixo; o que está dentro é como o que está fora”.

2. Na visita à Base Aérea, houve um momento em que você parecia reencontrar o menino que foi. O que mais te surpreendeu nesse reencontro com a tua própria origem?

R.: Me surpreendi mais uma vez com o poder da memória, ativada pelos sentidos. O cheiro de gasolina de avião, o som dos jatos cortando a cor azul do céu…foi como abrir a porta de um antigo sótão onde estavam guardadas memórias muito antigas e, no entanto, vivíssimas.

“A memória dos sentidos e a memória do amor que recebi de meus pais quando eu era um guri. É uma das estruturas que me definem e sustentam desde sempre e para sempre”.

3. Sua mãe te vestiu de astronauta com um paraquedas descartado. Essa imagem é tão simbólica… você sente que, de alguma forma, a arte também foi esse paraquedas que te permitiu voar e pousar em segurança?

R.: Uma bela pergunta e uma bela associação. Nunca havia pensado nisso mas, sim, faz todo sentido.

A Arte foi um meio de corporificar as asas que eu tinha dentro de mim, que me permitiram voar – alguma vezes bem alto – mas o Amor que recebi quando menino sempre me sinalizou com a confiança de ter para onde voltar e como pousar são e salvo.

4. Você passou por um acidente grave, esteve frente a frente com a possibilidade da morte. Depois disso, o que mudou na sua relação com o tempo, com o corpo e com o seu ofício como ator?

R.: Foram mais de 40 meses – e 9 cirurgias – de muito sofrimento e dor. Ninguém passa impune por uma experiência dessa magnitude.

A possibilidade real da Morte me fez despertar para a urgência da Vida, para os limites do Corpo e para a vertigem do Tempo.

Creio que amadureci como pessoa, como artista e como astrólogo. Sobretudo descobri uma capacidade de resiliência que eu nem sabia que tinha dentro de mim.

Aprendi a fazer Mais com Menos.

Hoje olho para minhas cicatrizes com carinho e penso: “aqui feriu, aqui curou.”

5. Esse retorno a Canoas aconteceu poucos dias após sua alta hospitalar. Foi coincidência, destino, ou você vê isso como um chamado simbólico de renascimento?

R.: Vejo nisso tudo uma sincronicidade muito bela.

Um dia após retirar os pontos da minha última cirurgia, lembranças de meu esbarrão com a Morte, voltei para Canoas – a cidade onde nasci – às vésperas de completar 65 anos de idade para receber uma homenagem por meus 45 anos de trabalho como ator.

Um jeito muito bacana de celebrar o encerramento de um ciclo e o começo de outro. Dou graças à Senhora Dona Vida que me presenteou com o privilégio desse Recomeço.

O melhor de tudo? A sensação de merecimento. Não é pouca coisa. Mesmo!

6. Em algum momento da visita, você disse que aquele era um dos dias mais marcantes da sua vida. O que exatamente tocou tão fundo ali?

R.: A sensação de ser a pessoa certa, no lugar certo, na hora certa, do jeito certo.

Experimentar a qualidade mágica do tempo Presente no modo Indicativo.

Eu não fui nem serei: eu sou.

7. Como o homem que você é hoje enxerga o pai que te levava para a base, que te ensinava as engrenagens dos aviões? Que memórias você guarda mais vivas dele?

R.: Meu pai me ensinou muitas coisas, cuidou de mim e sobretudo me amou muito. Sou imensamente grato a ele e minha mãe, filho único que sou.

Esse mesmo Amor maiúsculo que tenho re-passado para Jonas/23 e Daniel/19, meus amados filhos desde o dia em que nasceram. Eles são a melhor coisa que já me aconteceu. O Amor é a única coisa que quanto mais se dá, mais se tem. O Amor precisa circular, um círculo virtuoso.

Saber-se amado desde sempre é o maior presente e a maior herança que podemos receber e oferecer.

Foto Crédito: Marlon Carvalho

Junto com a Gratidão, claro, que dá sentido a tudo.

8. Falando sobre astrologia: o que o seu mapa astral diz sobre este momento da sua vida? Há algum trânsito ou aspecto que você interpreta como um renascimento?

R.: Claro, o planeta Plutão transitando lentamente em Aquário pela minha Casa Um Astrológica espelha essa transformação, dentre outros pequenos/grandes detalhes.

É bonito estar vivo e ter consciência desse jornada simbólica no Aqui & Agora.

9. Você sempre foi muito atento ao lado simbólico das coisas. Que símbolos você reconheceu nesse retorno à base aérea? Que mensagens o universo parecia te entregar ali?

R.: O Fundo do Céu, a Casa Quatro Astrológica, representa os inícios e finais de muitos processos e esse “lugar” do meu mapa astrológico está bastante “ativado” por trânsitos planetários importantes.

Grandes ciclos encerrando-se para dar lugar a novas viagens de aprendizado. É fascinante.

10. Muitas pessoas conhecem o ator Marcos Breda. Mas depois de tudo o que você viveu o acidente, a recuperação, esse reencontro com sua infância quem é o Marcos de agora? O que ele busca? O que ele já não aceita mais?

R.: Tenho compartilhado com alguns amigos e amigas a sensação de que ainda não sei o que quero da Vida, mas começo a saber direitinho aquilo que eu NÃO quero.

Existem situações, pessoas e sobretudo idéias que não aceito mais. Não brigo nem discuto, apenas me afasto.

Meu tempo e energia são preciosos demais para serem desperdiçados com tolices e formas rebaixadas de viver e conviver.

Tenho dado adeus a muita gente canalha. Tanto melhor, não farão a menor falta. Muito pelo contrário, aliás.

11. Se você pudesse mandar uma mensagem para aquele menino de cinco anos vestido de astronauta, ali naquela pista da base, o que você diria para ele hoje?

R.: “Continue, garoto, siga em frente. Acredite, vai valer MUITO a pena.”

Foto crédito: Marlon Carvalho

12. E para o público que te acompanha há tantos anos no teatro, na televisão, na vida o que você gostaria que eles soubesse sobre você que talvez ainda não tenham percebido?

R.: Que sou um cara que que gosto muito das escolhas que fez e que tem batalhado muito por cada uma delas.

Como dizia meu saudoso pai, “quem faz aquilo que gosta, rende o dobro e cansa a metade.”


Marcos Breda veste Aduana.

Edição: Isabel Kurrle.

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