Na cena cultural do Rio Grande do Sul, tradicionalmente marcada por influências europeias, surge o pioneiro da música autoral cigana no estado, Otavio Freddo Saldanha, criador e fundador do grupo Coração Cigano em 2007
Nascido em Sarandi, Otavio mudou-se ainda bebê, aos seis meses de vida, para São Leopoldo, onde cresceu e se desenvolveu. Ao longo de sua trajetória, transitou entre a arte, o futebol e a gestão cultural, consolidando-se como um agente transformador qualificado para atuar também em esferas públicas.
Das Origens à Canção: A Construção de Um Pioneiro
A relação de Otavio com a música começou cedo, aos 10 anos de idade, quando já compunha e fazia serenatas nas janelas para as gurias do bairro. Nesse mesmo período, revelou outro talento natural: o futebol. Com o incentivo do pai, conhecido como Saldanha, Otavio conquistou o primeiro lugar na categoria de 10 a 14 anos e o segundo lugar geral no torneio Coca-Cola Bom de Bola, promovido pelo então presidente da LIMFA de São Leopoldo, “Feio”, em parceria com representantes da FIFA do Rio de Janeiro.
Otavio, conhecido no futebol como Kiko, jogou em várias equipes do Rio Grande do Sul, incluindo o Clube Esportivo Aimoré, onde chegou a atuar em três partidas pelo time profissional. Essa jornada não foi apenas esportiva: trouxe aprendizados essenciais disciplina, resiliência e espírito de equipe que mais tarde se refletiram tanto na sua expressão musical quanto na sua atuação como gestor cultural. A arte, desde cedo, manifestou-se em diferentes formas, construindo, passo a passo, o pioneiro da música autoral cigana no estado.

Foto crédito: Arquivo pessoal
O Talento Nato: Autodidata e Mestre da Composição
Otavio Saldanha é a materialização do talento genuíno. Autodidata por natureza, desenvolveu uma habilidade singular de compor, incluindo uma obra em dialeto romani cigano um feito raro na música gaúcha. Sua criação brota de uma intuição apurada, que capta nuances culturais e as transforma em arte com autenticidade e sensibilidade. Entre suas composições, destaca-se a obra-prima “Toada dos Pampas”, vencedora do 20º Acampamento da Arte Gaúcha de Tapes (2024), na categoria instrumental.
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Música vencedora do 20° Acampamento da Arte Gaúcha de Tapes (2024).
Com essa conquista, Otavio recebeu o troféu de autor com maior número de vitórias Instrumentais de 2024, consolidando-se como um dos grandes nomes da música instrumental gaúcha contemporânea.
A Música Cigana: Uma Tradição que Encontrou Sua Voz Gaúcha
Compositor, músico e poeta, Otavio Freddo Saldanha não apenas representa a música cigana ele a encarna e a revitaliza no Rio Grande do Sul. Sua voz suave carrega o sentimento e a alma nômade de seus ancestrais, enquanto suas composições entrelaçam, com maestria, a tradição cigana às paisagens culturais gaúchas.
Reconhecido por produtores, músicos e artistas da dança, Otavio é considerado pioneiro da música autoral cigana no Rio Grande do Sul com registros públicos na internet desde 2007. Embora possam existir outros compositores no mesmo segmento, suas obras não apresentam registros online anteriores à referida data. Otavio é um criador singular, com a capacidade de gerar obras que transcendem a técnica e acessam o território sagrado da inspiração onde a arte pulsa em seu estado mais puro.
A Política Cultural: O Ativista que Planta o Futuro
Para além das composições que unem o universo cigano à identidade gaúcha, ele tem se destacado como um protagonista da política cultural em São Leopoldo e no Rio Grande do Sul. Criador e realizador de diversos projetos no município, Otavio esteve à frente, em 2005, da implantação dos Fóruns de Linguagens Artísticas e foi um dos responsáveis pela criação do Conselho Municipal de Políticas Culturais, o qual presidiu por três anos.
Sua atuação se estende também ao nível estadual, onde foi Membro Titular da Setorial da Música do RS, reafirmando seu compromisso com a valorização da arte e com a construção de políticas participativas para o setor. Com uma visão que alia sensibilidade e planejamento, sua gestão cultural se fundamenta no olhar humano, inclusivo e transformador características que o habilitam a pensar cultura como instrumento de cidadania e desenvolvimento social.
A atuação de Otavio transcende os palcos. Como político e ativista cultural, ele tem se mantido na vanguarda das discussões sobre políticas culturais em sua região. Sua competência e profundo conhecimento na gestão cultural lhe renderam o cargo de coordenador de musica na Secretaria Municipal de Cultura e Relações Internacionais da Prefeitura de São Leopoldo de 2005 à 2007, onde desenvolveu importantes trabalhos de fomento à cultura local, demonstrando na prática como transformar a arte em instrumento de transformação social.

Foto crédito: Arquivo pessoal
Sua experiência concreta na administração pública, somada à sua visão única como artista e sua compreensão das dinâmicas familiares e comunitárias, o credencia naturalmente para assumir posições de maior relevância na gestão cultural governamental.
Otávio Saldanha representa exatamente o tipo de profissional que a cultura gaúcha precisa para avançar: alguém que conhece as tradições, compreende as necessidades contemporâneas e possui a experiência de vida necessária para construir políticas culturais efetivas e inclusivas.

Foto crédito: Arquivo pessoal
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Música: Gaudério Gitano
Entrevista
1. Como sua experiência como coordenador de música na Secretaria Municipal de Cultura e Relações Internacionais de São Leopoldo e sua atuação como ativista cultural prepararam você para assumir posições de maior responsabilidade na formulação de políticas públicas para a cultura?
Minha trajetória como coordenador de música da SECULT de 2005 à 2007, em São Leopoldo e como ativista cultural me ensinou que a gestão pública só faz sentido quando está conectada com a vida real das pessoas. Estar em uma linha de frente da cultura me deu a oportunidade de dialogar com artistas, produtores, comunidades periféricas e pessoas que encontraram na arte uma forma de existir e resistir. Ali, aprendi que cultura não é só entretenimento é cidadania, é memória, é cura.
Carrego comigo a certeza de que políticas públicas só são eficazes quando são construídas com afeto, escuta e respeito. Não basta administrar recursos: é preciso cultivar relações, fomentar pertencimento e garantir que todos tenham espaço para criar, sonhar e se expressar. Essa visão humana colocada em prática nos fóruns, conselhos e projetos que ajudei a construir é o que me prepara para assumir novas responsabilidades no campo da cultura.
Porque antes de ser gestor, sou um ser humano comprometido com outros seres humanos e com o poder transformador da arte.
2. Que medidas prioritárias você defende para garantir que as expressões culturais de matriz cigana e outras tradições minoritárias recebam o devido reconhecimento e apoio em políticas públicas estaduais e municipais?
Para que a cultura seja verdadeiramente democrática, precisamos reconhecer que nossas diferenças nos enriquecem. As expressões culturais ciganas e outras tradições minoritárias carregam histórias, espiritualidade, modos de viver e resistir que merecem ser valorizados não como curiosidade mas como patrimônio vivo.
A primeira medida que defendo é o reconhecimento institucional dessas tradições como parte integrante do imaginário cultural do nosso estado. Isso inclui pesquisa, registro, ensino e a criação de espaços de diálogo. Outra iniciativa fundamental é garantir recursos específicos e contínuos, que viabilizem projetos artísticos, educativos e formativos liderados por pessoas dessas próprias comunidades.
Mas tudo isso só faz sentido quando vem acompanhado de um olhar humano, baseado na escuta e no respeito. É preciso aproximar a gestão pública das comunidades, ouvir seus anseios e permitir que elas mesmas participem da construção das políticas que as afetam.
O empoderamento cultural começa pela legitimidade da voz e não pode existir política sem diálogo verdadeiro com quem vive a cultura no corpo e na alma.
Assim, defendendo investimento, reconhecimento e participação, podemos garantir que a cultura cigana, e todas as outras expressões minoritárias, tenham o lugar digno e plural que merecem no nosso espaço público.
3. Como sua dupla experiência como artista e gestor cultural influencia sua visão sobre o papel do Estado na preservação do patrimônio cultural para as futuras gerações?
Ser artista me ensinou a olhar a cultura com o coração. Ser gestor me fez aprender a olhá-la com responsabilidade. Essa combinação me faz acreditar que o Estado tem uma missão essencial: cuidar da memória, das expressões e das histórias que nos moldam como sociedade.
Como artista, vejo o patrimônio cultural como algo vivo não é só herança, é identidade pulsante. Como gestor, entendo que sem o apoio do Estado, muito do que somos corre o risco de se perder, principalmente entre as comunidades mais invisibilizadas.
O papel do Estado vai além de preservar festas ou documentos. Ele precisa reconhecer e celebrar a diversidade que forma o Brasil especialmente as culturas que foram historicamente marginalizadas, como as culturas negras, indígenas, ciganas e tantas outras expressões populares. São vozes que carregam saberes ancestrais, resistência e beleza, e que merecem ser protagonistas das políticas culturais.
É fundamental investir em educação, fomentar espaços de criação e registro, apoiar mestres de tradição, construir arquivos vivos e garantir que a cultura seja acessível e valorizada por todos. Preservar não é congelar: é alimentar as manifestações culturais para que possam florescer e inspirar as futuras gerações, criando pontes entre passado, presente e futuro.
Mensagem Final
A arte tem força, mas não basta cantar esperança: é preciso cobrar ações concretas. A cultura não pode ser apenas memória, ela deve ser um instrumento vivo de cidadania. Não podemos ignorar que muitos artistas lutam para sobreviver. Cultura é trabalho e todo trabalho exige respeito, valorização, investimento e políticas públicas de verdade. Onde houver um olhar humano que ampare artistas e fortaleça a cultura, ali também estará o meu coração – Otavio Freddo Saldanha.
Edição: Isabel Kurrle