As imagens deste texto são do artista visual, Will Kurtz, dos Estados Unidos. Não confunda peça de museu com arte. Às vezes sim, mas quase nunca é a mesma coisa. Vale a pena conhecer esse artista. A arte dele é genial. Mas o museu em questão é outro.
Tem gente que já virou peça de museu mesmo: imóvel, empoeirada e com uma plaquinha ao lado explicando como era a vida antigamente — e com orgulho disso, claro.
São pessoas que desfilam pensamentos vencidos como se fossem relíquias valiosas. Carregam com entusiasmo a frase “no meu tempo era melhor”, como se o mundo tivesse parado de evoluir logo depois que elas aprenderam a usar o telefone celular.
Essas figuras vivem como se fizessem parte de uma exposição permanente sobre os costumes do século passado. Um horror! Cada comentário racista, machista ou homofóbico vem acompanhado da justificativa clássica: “É só a minha opinião!” — como se opinião desatualizada fosse patrimônio histórico. Não pode mais ser. É ignorância com verniz vintage.
Elas têm pavor de mudança porque mudança exige um tipo de flexibilidade que peças de museu não têm. Elas precisam ficar imóveis. Já viu estátua fazer alongamento? Ficam observando o tempo passar com ar de superioridade, como se o progresso fosse uma ameaça pessoal à sua existência. Inventam todo tipo de absurdo para manter a ordem e o status quo como está.
Acredito que muitos agem assim porque sempre foram beneficiados pela padronização. As chances sempre estiveram em suas mãos — e, diante disso, não pretendem perder nada. Igualdade é muito futurística para esse povo.
A nova geração, com seus cabelos coloridos, seus pronomes novos e as criações naturais de cada gueto: como “todes”, incomoda porque não parte dessas pessoas. Para elas, serve o prato feito da monotonia. Não querem saber de sobremesa criada por ninguém diferente de si. Chatice.
A geração mais nova, com sua coragem de contestar, parece, para esses fósseis, um ataque direto à ordem natural das coisas. Mas a verdade é que não é ataque: é apenas a vida fazendo o que sempre fez, se reinventando, se movimentando, fazendo zig-zag entre os erros e acertos do tempo.


Mas peça de museu não gosta de reinvenção. Gosta de ser contemplada. Gosta de ser lembrada como “aquele tempo bom”, mesmo que esse tempo tenha sido opressor para todo mundo que não se encaixava no molde. E por isso hoje, bandeiras coloridas são combatidas mais do que furto. Elas querem ser respeitadas por terem sobrevivido ao tempo, sem perceber que, na verdade, só estão encalhadas nele. E que, para avançar, o mundo não precisa da opinião delas. Como seria bom deixar todo mundo viver de boas!
O problema é que algumas dessas peças saem do museu — e votam. Educam filhos. Comentam nas redes. Criam teses, abrem igrejas e se tornam líderes. E por onde passam, deixam um rastro de naftalina e intolerância. Querem que o mundo se dobre à sua estagnação. Lutam em grupos gigantes pelo mundo afora, sendo claramente combatidas pelo novo. Falta de arte!
A gente espera que o mundo seja mais sensível. Mas, para isso, sabemos que teremos que usufruir da internet de outra forma e buscar o saber — por nós e por aqueles que virão depois de nós. Ver além de um jornal e tornar o papel machê escultura.
Mas o mundo gira. E a gente tem que melhorar. Para que mais gente entre na roda da felicidade — que deve ser algo que todos nós, humanos, precisamos provar. O mundo vai girar ainda mais, e quem não gira junto está fadado a ser exposição.
E infelizmente, não a do Will. Linda e criativa, causando pelos museus de arte do mundo todo.