Richard Serraria fala sobre arte, palavra, persistência e o poder transformador da cultura.

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Richard Belchior Klipp Burgdurff, ou Serraria, se considera mais poeta do que músico e, assim, brinca com as palavras para mostrar o compromisso e a seriedade de quem trabalha com arte, mas respeita e se preocupa com a sociedade. Músico, compositor, cantor, poeta, escritor, tamboreiro, pensador, professor e mestre em Literatura, está há 28 anos à frente do Bataclã FC, banda pela qual lançou três álbuns e está finalizando o quarto; dois álbuns de sua carreira solo; e tantos projetos culturais e sociais mundo afora — como o belo e infantil Girafa na Cerquinha.

Passando pelo rock e pelo samba, pelo rap e pela MPB, visitei um pouco da trajetória de um artista completo, mas mergulhei nos pensamentos de um cara de quem sou fã — e que também considero um amigo. Memórias, pensamentos, dicas e ensinamentos. Assim é uma conversa com Serraria, que, nesta entrevista muito especial, me deixou trazer um pouquinho da poesia que move sua vida e dá ritmo à sua trajetória.

Serraria, como foi teu primeiro contato com a música?

Foi através da eletrola que tinha na minha casa na década de 70. Meu pai ouvia discos gaúchos de José Mendes e Gildo de Freitas, e minha mãe, o samba de Clara Nunes, Martinho da Vila… Minha avó, que era negra, me levava aos terreiros de batuque, e eu ficava vidrado nos tambores e impressionado com a velocidade das mãos dos tamboreiros — era quase um transe ouvir e olhar. Também as rodas de samba em volta do campo do Grêmio Esportivo Internacional Serraria. No final da década de 70 teve aquele boom do Elvis Presley e da música internacional.

Quais foram ou são as tuas influências musicais?

Eu não sei como nominar isso, pois minhas influências são mais literárias. Eu estudei poesia, e minha forma de expressão é a palavra. A música é o veículo, o suporte. Eu poderia pintar um quadro, escrever um livro, fazer um filme — mas eu faço canções. Pra mim, o mais marcante é a dimensão da palavra, e daí vem a influência de um João Cabral de Melo Neto.

Musicalmente, acho que o Chico Science, pois, na década de 90, quando comecei a me profissionalizar na música e cursava Letras na UFRGS, eu estudava o Nacionalismo Cultural, a Antropofagia, a Semana de Arte Moderna, o Tropicalismo e essa coisa do global e do local. O Chico Science já fazia esse crossover entre música pernambucana, folclórica, popular e coisas internacionais, como a guitarra de Jimi Hendrix e o rap.

Depois, nos anos 2000, passei a estudar muito profundamente a obra de Tom Jobim. Comprei três songbooks para estudar harmonia no violão e poder seguir caminhos musicais que não fossem tão óbvios — e a bossa nova te permite isso: uma expansão do pensamento musical que eu acho muito legal para cancionistas e para quem se arvora a fazer canções e construir tecidos de palavras com melodia ou com ritmações de voz.

Quando tu percebeste que “a coisa estava acontecendo” e que tu já tinhas uma carreira de músico?

Eu tocava baixo em bandas covers. Lembro que eu tinha uma pastinha que devia ter umas 250 músicas — entre Creedence, Rolling Stones, Beatles, Tim Maia, Roberto Carlos, B.B. King e até uns boleros. Isso era legal porque dava uma versatilidade muito grande.

Foto crédito: Google

Mas eu me dei conta de que era músico mesmo com o Bataclã FC quando, a partir de 1997, comecei a ganhar dinheiro com a música autoral. Daí a sensação era de que tocar cover era uma espécie de bico, e que ganhar dinheiro com a tua própria música dava um sentimento de “peraí, tem algo diferente aí…”. Eu ainda não vivia só da Bataclã FC e me desdobrava como professor universitário na Feevale, mas já rolavam uns cachês bacanas e a gente viajava bastante. Então, por 1999, 2000, eu já entendia que, embora eu não me sustentasse só com a música, eu era um músico que ganhava dinheiro com a minha própria música — e aquilo já dava uma boa perspectiva.

Se tivesses que escolher uma música pra ser a trilha sonora da tua vida, qual seria?

Música favorita eu tenho muitas — depende da hora, do dia, do mês. Eu gosto muito de Drão, do Gil, e daquela maneira como ele fala de separação. Don’t Leave Me Dry, do Radiohead, eu acho fantástica. Aquela Mi Guitarra y Vos, do Jorge Drexler, é uma canção perfeita. Adoro O Mágico de Oz, dos Racionais, que acho muito potente e rica dentro do rap. Insensatez, do Tom Jobim, é uma grande canção e me toca.

Pra mim, nem é a canção em si, mas o que ela traz e faz lembrar. Tem uma música do Lulu Santos — Certas Coisas — que me faz lembrar da minha adolescência, quando eu morava em Minas Gerais. Lágrima de Chuva, do Kid Abelha e Os Abóboras Selvagens, também me transporta para um momento da minha vida. Um Trem para as Estrelas, do Cazuza, também acho uma canção belíssima. Eu adoro O Fundo da Grota, do Baitaca, e, obviamente, Chico Science, que tem várias que eu gosto muito. Cada música me transporta pra uma época da minha vida.

Qual é a tua composição favorita da obra do Richard Serraria?

A canção minha que mais gosto? São tantas… Se tivesse que escolher uma, apenas hoje, eu escolheria Mãe Parteira da Preta Senzala, do meu trabalho solo. Ela fala do calçamento chegando na minha rua, uma favela num morro, e eu construindo uma casa quando minha filha nasceu.

Da Bataclã FC, sem dúvida, é A Balada Certa, pela potência revolucionária daquilo que a poesia contém. Mas amo, mais recentemente, Pachamama Revolução, uma letra de canção perfeita.

Qual foi o show mais marcante da tua carreira até agora?

Show mais marcante sempre é o próximo, sem demagogia. Eu procuro cuidar muito disso e não ter o “complexo do torcicolo”, de ficar olhando pro passado. Mas, sem dúvidas, marcante pra mim foi o Fórum Social Mundial. Tocar em Porto Alegre pra 75 mil pessoas, na mesma noite em que tocaram O Rappa e Os Replicantes, num palco gigante, com sonzão.

Mas tem muitos outros marcantes. Uma vez a gente tocou em Buenos Aires, num teatro para 700 pessoas, e, no final, as pessoas ficaram batendo com os pés no assoalho do teatro, gritando “¡Una más! ¡Una más!”. Toquei também em Cuba, na Espanha, em muitos lugares do Uruguai… Mas esse show da Bataclã FC no Fórum Social Mundial foi o mais marcante da minha vida.

Foto crédito: Google

E o pior show que tu já fizeste?

Acho que o pior foi uma vez que fomos tocar na Vila Cruzeiro. A gente não negava nenhum lugar pra tocar com a Bataclã FC, e era uma festa de algum líder comunitário. O palco (modo de dizer…) era um tablado de madeira todo guenzo, e a bateria “andava” por tudo. O som não vinha e tinha microfonia por todo lado. Quando resolvia um problema no baixo, era a bateria que estava quase caindo do palco. Todo o equipamento era precário. A gente tocou só umas três músicas e saiu fora. O público, às vezes, não tem essa percepção da precariedade — tanto que, no final do show, as pessoas ficaram nos olhando com um olhar de reprovação (risos).

Artista passa muito perrengue. Qual a maior dificuldade pro artista?

A maior dificuldade é ter persistência, né, cara? Porque todo mundo tem motivos pra desistir. “Ah, não tô ganhando dinheiro… só tô me incomodando… casei… achei uma profissão e comecei a ganhar uma grana naquilo…”.

Mas eu acredito que quem é da música e da arte não consegue viver sem — e daí tu pode casar, ter oito filhos mas segue fazendo. Então, eu acho que a maior dificuldade é a persistência, a continuidade. Quem é não consegue parar!

Qual a melhor coisa em se viver de música?

Tem uma passagem de um livro do Rainer Maria Rilke que fala de um jovem poeta que chega para um poeta mais velho e pergunta algo tipo: “Como eu faço pra saber se eu sou um poeta?” e o poeta mais velho responde: “Se você não consegue viver sem poesia, então você é um poeta!”.

A melhor coisa de viver de música, pra mim, é saber que eu não consigo viver sem fazer música. Saber que eu trabalho e vivo disso pra mim é uma felicidade. Porque fazendo música eu pago minhas contas e não preciso fazer outra coisa.

Obviamente, não vou romantizar isso, porque eu passo muito tempo trabalhando e fora de casa. Às vezes chega um feriadão, e a família quer fazer alguma coisa, e tu não quer — quer ficar em casa porque já passou muito tempo na rua e viajando. Então é isso: a melhor coisa de se viver de música é a certeza de que é isso que eu gosto de fazer e que estou trabalhando com isso.

Que leitura tu recomendarias para os jovens?

Eu recomendaria o contato com qualquer livro que seja, porque nós somos seres feitos de palavras. Então leia, leia, leia! Pra mim, o melhor livro que li foi Memórias Póstumas de Brás Cubas, do Machado de Assis. Mas eu sou muito aficionado em poesia, né? Eu leio poesia o tempo todo. Então eu diria para lerem os grandes poetas! Leia João Cabral, Paulo Leminski, Hilda Hilst, Clarice Lispector — embora não seja poeta.

Pra crianças, tem tanto livro bom, pra capacidade de fabulação pra capacidade de encantamento… Eu tenho uma biblioteca gigante em casa, com muito livro infantil. Então eu diria: Leia! Leia! Leia! Porque a leitura é um local de encantamento onde eu habito e de onde não quero sair.

Qual filme ou série tu assistirias de novo?

Eu não sou tanto das séries… pra mim é meio que um “preconceito” (risos). Série não é cinema — e eu gosto é de cinema. Cinema é arte, e série é uma coisa meio comercial, quase que nem novela. O tempo que eu tenho livre, eu vejo filmes, mesmo que ruins, porque é cinema. Então, filmes que eu assisto várias vezes são os clássicos. Eu adoro Blade Runner, Casablanca… já vi várias vezes.

foto crédito: Google

Qual tu achas que é o papel do artista na sociedade?

Eu acho que o papel do artista na sociedade é se entender como um cidadão comum, um trabalhador igual aos outros, e que precisa interagir no tecido social. Cidadania é tu te entender como parte do coletivo e procurar atuar na sociedade.

“O artista no Brasil,
como um trabalhador privilegiado,
deveria atuar para diminuir
a desigualdade social de algum modo”

Desenvolver a ideia, principalmente na molecada, de que arte é bacana, arte é legal, mas que tem um compromisso — num país como o Brasil — de atuar, com o que estiver ao seu alcance, para diminuir a desigualdade, promover inclusão, mobilidade social e diminuir o preconceito e o racismo.

Poder trabalhar também o lado pedagógico e didático da arte, como a leitura — que é um trabalho que tu mesmo já faz aí com as Gelotecas, por exemplo. O artista não deve se descolar do que está havendo à sua volta, tipo: “Minha arte é legal, as pessoas estão vindo me ver, eu tô ganhando grana…”. O artista midiático, às vezes famoso, incorre nesse erro. Eu acho que é importante o artista estar antenado nisso e não se descolar da realidade e do poder de transformação da arte.

Se tu pudesses ser um personagem ou outra pessoa, quem tu gostarias de ser?

Sei lá, cara (risos). Quem não gostaria de ser Michael Jackson? (risos), artisticamente falando. Mas algumas informações da vida dele que chegam até nós não são legais, né? Mas como personalidade artística… brincando um pouco… Eu gosto de futebol, então… tudo que o Pelé conseguiu fazer em campo… Acho que esses dois, pelo lado profissional, fizeram muito bem as coisas que se propuseram a fazer.

Honestamente — e artisticamente, brincando (risos) — o Bob Marley, porque ele não tem música ruim. Ou quem sabe ter sido um Lennon ou McCartney. A coisa do Carnaval me fascina muito, então talvez um Jamelão ou Neguinho da Beija-Flor, um cara do samba, um puxador assim… Me permiti brincar na pergunta e romantizar a vida dos caras, mas sempre pela parte artística. Ah, e a obra que Shakespeare fez, né…?

Que mensagem tu gostarias de pichar num muro?

Eu picharia “A vida é um poema” mas em um picho ou grafite em que a palavra fosse uma arte escrita assim:

P r O b l E M A

Pra quem olhasse de longe, visse as letras maiúsculas formando a palavra “POEMA” mas de perto, entendesse que alguém tirou as minúsculas “r”, “b” e “l” e transformou o problema em poema.

O que é essencial pra ti?

Essencial pra mim é positivar a vida. A vida vale a pena. Viver é bom. Positivar sempre!

A Balada Certa – Bataclã FC

Mãe Parteira da Preta Senzala – Richard Serraria

Instagram: @richardserraria

Edição: Isabel Kurrle

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