Provocações no fim do mundo

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Chegamos ao apocalipse.
Faz anos que ouvimos que o mundo vai acabar — e ele nunca acaba. Vivemos num eterno estado de colapso adiado. Somos uma geração confinada à ideia do fim do mundo, e talvez por isso tenhamos nos acostumado a sobreviver mais do que a viver.

Aos poucos, os livros vão sendo esquecidos, deixados de lado, enquanto nossa atenção se concentra quase exclusivamente na tela do celular. Ninguém sai ileso desse inimigo silencioso. E ele, curiosamente, morre apenas quando a bateria descarrega.

Perdi a conta de quantas vezes, ao longo dos últimos anos, ouvi as palavras: “É o fim dos tempos.”
Diante disso, nos apegamos ao imaginário para sobreviver à ausência de leitura, de reflexão, de profundidade.
Hoje, há mais gente armada com armas do que com livros. No Brasil, por exemplo, em 2022, havia cerca de 1,5 milhão de CACs (colecionadores, atiradores e caçadores) registrados — um número que ultrapassa o de livrarias em atividade no país, que gira em torno de 2.500 estabelecimentos.

Nem sempre lemos. E talvez, para muitos, a literatura precise agora caber em 15 segundos — o tempo de um story. Um tempo curto, descartável, como se fosse suficiente para contar uma vida.
Textos menores? Sim. Mas… quem lê? E o quê?

Tudo bem se o mundo acabar sem livros?
E sem escritores?
Quem se lembra de algum?

O escritor talvez seja aquele senhor solitário, sentado diante de uma janela, observando o mundo ruir enquanto escreve a última frase de sua vida.
Qual seria a sua última frase?
Uma notificação, quem sabe, enviada para o mundo inteiro ler — mas que talvez ninguém abra.

Quando foi que paramos de escrever?
Talvez tenha sido quando os livros ganharam rivais mais sedutores: os algoritmos, as redes sociais, os vídeos curtos.
Foi depois da escola que tudo terminou? Ou foi justamente aí que tudo poderia ter começado?

Você ainda consegue ler um texto longo, sem interrupções?
Se sim, você já é resistência.

Provocações são necessárias.
Elas mexem nas estruturas que parecem sólidas, definitivas, intransponíveis.
Quando alguém te provoca com uma pergunta, uma metáfora ou um incômodo, ela conquista — mesmo que por breves instantes — um espaço no sótão da sua mente.
E se algo te provoca… talvez ainda haja esperança.

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