Stevie Wonder, 75 anos

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Não lembro exatamente quantos anos eu tinha quando ouvi Stevie Wonder pela primeira vez. Pra ser sincero, acho que ninguém lembra. Stevie Wonder é daqueles artistas que nós nascemos ouvindo. O cara está em todo lugar. Ele é um desses nomes que todo mundo conhece, mesmo que não saiba. Já esteve em trilhas de novela da Globo, em festa de casamento, sample de rapper, na playlist da sua mãe ou do seu chefe rockeiro. Como se diz por aí, ele une todas as tribos. A ficha caiu, de verdade, quando eu tinha seis anos e estava assistindo ao Rock in Rio 2011 com meu pai, na televisão da sala do nosso apartamento. Teve um momento bizarro: ele cantou “Você Abusou”, um clássico de Antônio Carlos e Jocafi, como se fosse dele. Lembro bem do meu pai, atônito, vendo a cena. E eu, mesmo com seis anos, entendi que tinha algo diferente ali. Era mais que música. Ele era uma força da natureza.

Saindo de mim e indo para ele, que é o real objeto desta nossa conversa, vamos aos fatos, que são quase inacreditáveis. A vida do cara é surreal. Stevie nasceu em 1950, ficou cego ainda bebê, aprendeu a tocar piano, bateria e gaita de boca sozinho, assinou com a Motown aos 12 anos, lançou seu primeiro hit aos 13, e aos 22 já estava lançando álbuns que hoje são considerados patrimônio da humanidade. Nessa idade, você e eu provavelmente ainda estávamos tentando entender como fazer a fórmula de Bhaskara. A carreira de Stevie começou ainda muito jovem na Motown, onde ele inicialmente gravava seus discos com os músicos de estúdio, os famosos Funk Brothers, os melhores músicos dos Estados Unidos na época. Só que, com o passar do tempo, seu talento explodiu em uma escala impossível de acompanhar. Só que aí, no começo dos anos 70, Stevie mudou tudo. Parou de gravar com a banda e começou a fazer tudo ele mesmo. Entrava no estúdio e gravava voz, baixo, teclado, bateria, gaita, percussão. Tudo sozinho. Um exército de um homem só.

Nesse esquema que nasceram os álbuns Talking Book, Innervisions, Fulfillingness’ First Finale, Songs in the Key of Life. Esse último, aliás, tem duas horas de duração. TODAS as músicas são boas. Este colunista que vos fala é um grande defensor da tese de que um disco, quanto menor, melhor, mas esse aí me fez engolir minha tese.Outro momento de Stevie que me marcou logo na infância foi o dueto que ele fez com meu ídolo supremo, Paul McCartney. Eles se juntaram para uma música que muita gente gosta de zoar, dizer que é cafona, mas que, convenhamos, fez mais pela ideia de respeitar o diferente do que muitos por aí. Ebony and Ivory é simples, sim. Talvez até óbvia. Mas às vezes é disso que o mundo precisa: do óbvio, de um lembrete de que o piano só é bonito porque tem teclas brancas e pretas lado a lado. O óbvio, na maioria das vezes, é genial. E a força disso, vinda de dois titãs como Stevie e Paul, foi maior do que os críticos da época, que acharam o dueto cafona, conseguiram engolir.

O que, depois de mais velho, me impressionou em Stevie Wonder é como ele consegue ser várias coisas ao mesmo tempo, e do jeito certo. Ele consegue ser político sem ser panfletário, ser espiritual sem ser pregador, romântico sem ser piegas. Ele toca mais instrumentos do que cabem no palco, compõe arranjos que desafiam o senso comum, e parece que ele não tem essa noção, parece que ele é o mesmo menino que gravou seus primeiros discos na década de 60. Me parece que, apesar de tudo, ele ainda acredita que o mundo pode melhorar. E talvez, por causa dele, melhore um pouco mesmo. Não é exagero dizer que, sem Stevie Wonder, a música teria sido mais pobre. Ele abriu caminhos que Prince, Michael Jackson, D’Angelo, Bruno Mars e tantos outros seguiram. E mesmo hoje, quando os algoritmos das redes sociais engolem tudo, Stevie ainda soa eterno. Música boa não envelhece.

Neste ano, ele completa 75 anos. Três quartos de século iluminando o mundo. E enquanto todo mundo envelhece, Stevie parece permanecer no mesmo lugar de sempre: um passo à frente, com os pés no chão e a cabeça no futuro. O artista é a pele da sociedade, ele vê tudo antes, e Stevie sempre viu. O artista é o profeta do mundo. Ele não é daquelas figuras congeladas na nostalgia. Ao contrário: ele pulsa. Tem um pouco de Stevie em todos os artistas que tentam dizer algo com verdade. Tem um pouco dele em todo mundo que já chorou ouvindo uma canção e achou que aquilo, de alguma forma, estava falando com ele. Eu poderia ficar mais uma hora falando dele, em como eu amo I Just Called To Say I Love You, mas não vou ocupar mais seu tempo. Um melhor uso para ele é você ir agora ouvir a obra dele. Vai por mim, vale a pena.

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