Tempo Rei: a despedida de Gilberto Gil e a eternidade do reggae brasileiro

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Desde muito cedo, o reggae foi meu refúgio e minha voz. Aqui no Sul, esse ritmo de origem jamaicana encontrou solo fértil, entre o samba rock, o surf music e o rock gaúcho. Nos anos 90 e 2000, o reggae floresceu com força: Produto Nacional, Chimarruts, Armandinho e tantos outros que embalavam nossas noites de verão na Casa de Praia e em shows memoráveis no Opnião além dos palcos do litoral. Eu era dessas. Regueira. Tocada por um ritmo que sempre trouxe nas letras bandeiras contra o racismo, denúncias sobre a discrepância econômica e mensagens de amor plural.

Foi ali que comecei a entender que música podia ser também resistência. A partir daí, veio a admiração pelos grandes nomes do reggae nacional: Edson Gomes, com sua contundência lírica, Cidade Negra, que nos trouxe a doçura e o grito social em melodias dançantes, e, claro, Gilberto Gil, o homem que reinventou a cultura brasileira, inclusive o reggae, com a mesma naturalidade com que veste um branco para o palco.

Em 2006, fui morar no Rio de Janeiro. Através da minha irmã, consegui um freela na Geleia Geral, a produtora do Gil. Trabalhar lá era surreal. Eu passava horas ligando para convidados VIPs de eventos no Jockey Club, e por dentro repetia: “Meu Deus, estou na produtora do Gilberto Gil!”. A adolescente regueira vibrava em silêncio.

Lembro com carinho de um momento que ficou gravado em mim. Cheguei apressada para o trabalho e fui direto à máquina de Coca-Cola. Ao lado dela, uma mesa repleta de santinhos e orações. Eu sempre pegava um, era meu pequeno ritual de fé. Naquele dia, vi um santinho novo: Nossa Senhora de Santana. Falei alto, empolgada, e ouvi uma voz: “Pegue e reze.” Baixei os olhos. Era ele. Gil, com seu jornal no colo, me oferecendo fé como quem oferece luz. Petrifiquei. Sorri, agradeci, pedi licença e desci para o meu setor. Lá embaixo, claro, expressei meu “bom estar de fã”.

Gil não era só um artista. Era, e ainda é, uma entidade. Um espírito livre que sempre entendeu que arte e política são irmãs. Foi perseguido pela ditadura. Preso. Exilado. Ao lado de Caetano, viveu o exílio em Londres, de onde trouxe ainda mais cor para sua música e mais força para sua presença política. Voltou para o Brasil transformado e nos transformando.

Cantor Gilbero Gil.

Gilberto Gil é também o ministro da Cultura que cantou Bob Marley numa cerimônia oficial da ONU, reconhecendo a força política do reggae como expressão global de resistência negra. É o homem que fez de sua vida uma oferenda à liberdade. Cantou sobre Deus e sobre Diadorim. Sobre o sertão e sobre o mundo. Sobre o amor e sobre a dor. Sua carreira é uma travessia poética da história do Brasil moderno.

Agora, com a turnê de despedida “Tempo Rei”, me pego tentando lidar com essa ausência anunciada. No último fim de semana, no Rio, ele dividiu o palco com Chico Buarque, outro pilar da nossa cultura, e juntos cantaram “Cálice”, a música censurada em 1973 no festival Phono 73. Um hino de resistência que ainda ecoa com urgência.

Vi tudo pelos stories dos amigos e pensei: como fica a vida sem essas lendas? Não sei. O que sei é que estou na torcida para assistir ao show de Porto Alegre, no dia 6 de setembro, no Estádio Beira-Rio, onde ele se apresentará pela última vez em solo gaúcho. Os ingressos estão no site da Eventim, e eu estarei lá, com os olhos marejados e o coração em festa.

Enquanto isso, sigo escutando seus hinos, apresentando para os meus filhos a música que me formou. Porque o que me cabe, sendo fã, sendo mãe, sendo brasileira é perpetuar. Passar para as novas gerações o quanto tudo isso significa: música, ser humano e história viva.

Viva Gilberto Gil. Viva o reggae. Viva o Brasil que canta e resiste.

Última turnê.

Fontes Uol, Folha de São Paulo.

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