Tem gente revendo Vale Tudo como se fosse novidade. E de certo modo, até é. A novela voltou com nova fotografia, ritmo mais ágil e elenco repaginado, até mais engraçadinha mas o Brasil continua reconhecível em cada cena.
Em 1988, quando a novela foi ao ar, o Bahia estava sendo campeão brasileiro em cima do Internacional, o país ainda usava orelhão, esperava carta e alugava videocassete. Saíamos de uma ditadura, redescobríamos a democracia mas ainda não tínhamos eleito um presidente com o nosso próprio voto e criticar o nomeado na época, era o esporte favorito de todos, enquanto se torcia para o Plano Cruzado emplacar. E tudo nesse país parecia estar em debate: ética, dinheiro, poder, caráter.
Vale Tudo foi uma aula de sociologia em horário nobre, com texto afiado e uma coragem rara para a televisão aberta brasileira. Era o Brasil tentando se entender e talvez por isso tenha virado o seu maior clássico.
Cortando para 2025, dava para fazer bem parecido: polarização política brutal, desigualdade social, casas de aposta, redes sociais, influenciadores e tantas outras coisas que são temas de debate em 11 a cada 10 casas brasileiras. Mas não foi o que se fez.

O remake optou por falar das pessoas, das chagas internas de cada personagem, e até com um toque de humor embutido. Não estragou a novela, mas, para todos que assistiram à versão de 1988 (ou, como eu, que assisti pelos streamings da vida), fica dolorosa a comparação.
A primeira versão é praticamente um thriller político, a segunda, mais leve, mais pessoal e com menos poder. Mas se você superar isso, vai se deparar com uma boa novela. Afinal, a comparação é a mãe de todas as decepções.
O texto é mais comportamental, as discussões mais pessoais, e a política, aquela das instituições e dos discursos, deu lugar à política das relações, dos sentimentos. E a gente observa dramas muito reais: Afonso e Solange, o romance mais dramático da novela, que me levou as lágrimas em mais de um capítulo, o alcoolismo de Heleninha e outras histórias da trama que podem não discutir o futuro da democracia no Brasil mas nos conectam justamente por serem humanas.
Do ponto de vista comercial, a novela é um sucesso arrebatador e com muito merecimento.
Se em 1988 as pessoas ficavam esperando o horário para ver a novela e comentar no dia seguinte no trabalho, hoje a gente vê pelo celular, comenta no Twitter e discute “quem matou Odete Roitman” no grupo da família.
O papo de que TV aberta é coisa de velho está ficando velho. A novela é comentada na minha faculdade, na escola da minha irmã, no Discord, a novela tomou conta. Os formatos mudam, os jeitos se transformam, mas muito permanece o mesmo.

Quanto mais as coisas mudam mais elas permanecem as mesmas. E a tão famigerada mídia tradicional faz mais uma vitória, óbvia para quem olha o mercado sem preconceito, surpreendente para quem enxerga com a miopia de achar que fora do digital não há salvação.
A novela tem acertos e erros dramáticos, é uma vitória inquestionável do produto, e traz ideias que ainda serão discutidas por anos. O fato é que foi uma revisita salutar do Brasil ao seu passado.
Porque rever Vale Tudo é revisitar o Brasil: um país que já se uniu tentando entender o que era certo e agora tenta, separado, lembrar o que ainda vale.
Edição de Isabel Kurrle.