Eu me apaixonei pelo futebol muito cedo. Meu primeiro amor foi o Grêmio, pouco tempo depois descobri que existia um momento em que aquele esporte tomava conta do planeta inteiro: a Copa do Mundo.
Da Copa de 2010 guardo poucas lembranças, em 2014, lembro dos jogos do Brasil e da final, em 2018 já assistia todas as partidas do torneio.
Nesse período, me apaixonei também pela história das Copas. A Laranja Mecânica de 1974, que encantou o mundo e parou diante da Alemanha de Beckenbauer.
O Brasil de 1982, que parecia destinado ao título com Zico, Sócrates, Falcão e Éder, mas ficou pelo caminho em Sarriá. O esquadrão de 1970, a eterna expectativa do English Team, histórias que descobri em documentários, livros e jogos antigos.
As Copas para mim nunca pareceram campeonatos independentes que acontecem de quatro em quatro anos. Para mim, cada Copa é um novo capítulo da mesma história iniciada em 1930. Uma história que agora vou ligar a televisão para descobrir seus próximos capítulos e desta vez, poderei dizer que vi acontecer ao vivo.

Mas foi acompanhando as Copas que eu descobri uma das suas maravilhas. A nossa necessidade de torcer por várias seleções. A gente senta na frente da TV, em um dia de Copa do Mundo, e quando o jogo começa, está torcendo pelo Japão contra a Holanda. Pela Inglaterra contra a França. Pelo Marrocos contra a Espanha. E o mais engraçado é que nem sempre existe uma explicação.
Claro, temos nossas simpatias. Eu adoro torcer por Inglaterra, Uruguai e México, pelo meu afeto por esses três países em particular mas nem sempre é assim. Às vezes, é totalmente aleatório.
A gente liga a TV e de repente, está torcendo…talvez pela camisa ou pela história que a transmissão contou antes da bola rolar ou porque aquele país nunca tenha chegado tão longe, até mesmo por implicância com a outra seleção.
Foi o escritor Antônio Prata quem definiu isso da melhor forma que já ouvi: a geografia do coração. Assistir a uma Copa do Mundo, para mim, é sentar diante da televisão e descobrir para onde a geografia do meu coração vai apontar naquele dia.

Escrevo este texto poucas horas depois de assistir a Holanda x Japão e vivi uma das situações mais absurdas que só a Copa do Mundo é capaz de proporcionar. Eu comemorei gols das duas seleções. Em momentos diferentes da partida, me peguei torcendo pela Holanda em outros, pelo Japão, vibrei com um gol holandês.
Depois vibrei com um gol japonês não porque eu tenha qualquer ligação especial com Amsterdã ou Tóquio, nem porque tenha uma tese geopolítica sobre quem deveria vencer aquela partida mas porque comecei torcendo pela Holanda, pela linda história futebolística deles e no fim, achava que o Japão merecia aquele gol.
A história das Copas é recheada desses momentos. O Brasil precocemente eliminado na Copa de 1990, adotou a seleção de Camarões como sua. Em 1970 o México, país sede, torceu pelo esquadrão canarinho de Pelé depois da sua eliminação.
A Costa Rica de 2014 conquistou uma torcida mundial após passar por um grupo com Inglaterra, Itália e Espanha.
Essa é a magia da Copa para mim, torcer por países aos quais ainda não fui, por povos com os quais eu não tinha identificação nenhuma antes e sofrer e vibrar com eles.

Talvez por isso minha relação com a Copa do Mundo seja até maior do que a minha relação com a Seleção Brasileira.
Claro que quero ver o Brasil campeão, Claro que sofro com cada eliminação mas a Copa para mim não é sobre o Brasil.
Copa do mundo é ligar a televisão em uma tarde qualquer de junho, assistir a um jogo entre dois países que eu ainda não conheço e descobrir onde meu coração vai morar pelos próximos noventa minutos.
A Copa do Mundo também sempre foi uma forma de descobrir o mundo. A gente se vê na frente da televisão aprendendo sobre países dos quais sabia muito pouco.

Outro dia, assistindo a um jogo da República Tcheca com meu pai, passamos vários minutos tentando lembrar em quais países a antiga Tchecoslováquia havia se dividido. Na estreia da seleção canadense descobri que o Canadá é oficialmente um país bilíngue.
A Copa do Mundo é uma janela para o mundo, durante um mês, viajamos sem sair do sofá, conhecemos bandeiras, idiomas, histórias, rivalidades, costumes e lugares que provavelmente nunca teríamos procurado por conta própria.
Com a Seleção Brasileira, minha relação é de amor também, escrevo este texto ainda na fase de grupos da atual Copa. Não sei qual será o destino da nossa seleção mas jamais vi o Brasil sequer chegar a uma final. Conheço de cor os times brasileiros campeões e suas histórias.

Mas ver ao vivo, de verdade? Nunca vi. Sofri o 7 a 1, chorei com a eliminação para a Bélgica em 2018. Me revoltei com o gol sofrido no fim contra a Croácia em 2022 e vamos para mais um desafio.
Hoje o Brasil é um país polarizado, dividido e cheio de rancor, onde até torcer pela Seleção Brasileira virou motivo de polêmica mas eu torço.
Torço para ter uma história para contar que só li em livro e tenho orgulho de torcer pela seleção que venceu cinco Copas do Mundo.
E como um bom publicitário, citando um jingle, só peço aos jogadores do Brasil que deem tudo de si.
Que amarrem o amor na chuteira porque a garra da torcida inteira vai com você, Brasil!
Texto: Muryllo Von Grol