Entre pincéis, personagens e bastidores, uma carioca solar que transformou seu talento em uma das carreiras mais respeitadas do audiovisual brasileiro
Algumas mulheres têm o dom de transformar qualquer lugar por onde passam, outras transformam pessoas, Mariah de Freitas faz as duas coisas, nos conhecemos no Rio de Janeiro, quando eu tinha 23 anos e ela apenas 19.
Trabalhamos juntas na Diesel do Fashion Mall, um dos endereços mais desejados da moda carioca na época. Era o lugar onde todo mundo queria estar mas para mim, as melhores histórias não estavam nas vitrines nem nas roupas.


Estavam nas pessoas e Mariah era uma dessas pessoas impossíveis de esquecer.Típica garota carioca, dourada de sol, sorriso fácil, divertida, espontânea e dona daquela energia que transforma qualquer encontro em uma boa história.
Foi ela quem me ensinou a montar minha primeira nécessaire de maquiagem de verdade, pequeno gesto, talvez.
Mas a vida é feita justamente dessas pequenas trocas entre mulheres, ao longo dos anos acompanhei sua trajetória de longe mas nunca distante.Vi a menina se tornar mulher.

Vi a amiga se tornar mãe, a profissional construir uma carreira admirável e vi permanecer intacta aquela característica que sempre a definiu: a capacidade de fazer as pessoas se sentirem bem ao seu redor.
Mariah nasceu em uma família onde a força feminina é quase uma herança. Filha da Dona Sonia, uma matriarca cercada por cinco filhas, cresceu em um ambiente onde união, cuidado e parceria entre mulheres não eram discurso, mas prática diária. Talvez seja daí que venha sua habilidade tão natural de acolher pessoas sem perder sua própria potência.

Enquanto muitos a conhecem pelos bastidores do cinema, eu gosto de lembrar que antes da profissional reconhecida existia a amiga das gargalhadas intermináveis, daquelas pessoas com quem uma cerveja em qualquer bar se transforma em um acontecimento memorável.
Mariah tem esse talento raro de tornar os momentos simples extraordinários.Mas foi no audiovisual que ela encontrou uma das suas formas mais bonitas de expressão.
Hoje reconhecida como maquiadora e chefe de caracterização, Mariah construiu uma trajetória sólida no cinema e na televisão brasileira. Seu trabalho ajudou a dar vida a personagens de produções como Sob Pressão, Dom, Entre Irmãs, Ângela e diversas outras obras que marcaram o audiovisual nacional.
E o mais bonito é perceber que a história continua acontecendo, enquanto escrevo esta coluna, Mariah está em set filmando o longa-metragem sobre a vida de Marta, uma das maiores atletas da história do futebol mundial. Confesso que isso me emociona porque ainda consigo enxergar a menina de 19 anos da Diesel do Fashion Mall mas agora ela está ajudando a construir visualmente a história de uma mulher que mudou o esporte.
É impossível não sentir orgulho, neta de Heleno de Freitas, um dos maiores nomes da história do futebol brasileiro, Mariah também teve a oportunidade de contribuir para projetos ligados à memória de seu avô, conectando arte, história e afeto em sua trajetória profissional.

Existe uma frase atribuída à própria Mariah que diz que transformar pessoas também é contar histórias e talvez seja exatamente isso que ela faça.Através de pincéis, próteses, texturas, cores e detalhes, ela ajuda a construir personagens que emocionam milhões de pessoas.
Mas quem a conhece sabe que sua maior transformação acontece fora das telas, Mariah foi mãe solo da Valentina, construiu uma carreira em um mercado extremamente competitivo.Seguiu criando, estudando, trabalhando e acreditando e fez tudo isso sem abrir mão da alegria num mundo que insiste em associar força à dureza, ela nos lembra que existe outra possibilidade.
A da mulher que luta sem perder a leveza que conquista sem perder a generosidade que cresce sem perder o humor.Talvez por isso eu tenha tanto orgulho da profissional que ela se tornou mas acima de tudo, do ser humano que ela escolheu ser.

Porque algumas mulheres deixam sua marca nos filmes, outras deixam sua marca nas pessoas, Mariah de Freitas faz as duas coisas.
E acompanhar sua trajetória é entender que talento e técnica constroem uma carreira mas é a humanidade que constrói um legado.
Da menina que me ensinou a montar uma nécessaire de maquiagem à profissional que hoje ajuda a contar algumas das maiores histórias do cinema brasileiro, existe um fio condutor que nunca mudou: a alegria, a generosidade e a capacidade de iluminar os lugares por onde passa.
Texto: Amanda Carvalho
Fotos crédito: Júlia Zanine