Eu também já precisei de um agasalho: a história de uma criança, uma doação e a jaqueta azul e preta que nunca esqueci
Eu lembro de quando era pequeno.Nos invernos mais rigorosos minha mãe buscava roupas em doação.
Eu não lembro exatamente a idade que tinha, era muito pequeno mas lembro da sensação: a alegria de receber um casaco, uma blusa quente, uma peça de roupa que naquele momento significava muito.
Graças a Deus, a vida foi generosa conosco.
O tempo passou, nossa realidade mudou e chegou o momento em que nós também começamos a doar.
Muitas famílias carregam histórias parecidas, histórias de momentos em que uma ajuda chegou na hora certa e trouxe mais do que uma roupa: trouxe cuidado, dignidade e esperança.
Para algumas pessoas, uma blusa esquecida no armário pode parecer apenas uma peça que não tem mais utilidade mas para quem recebe, ela pode representar proteção contra o frio e a sensação de que alguém se importa.

Eu lembro das mesas cheias de roupas, mulheres e crianças ao redor procurando um agasalho, escolhendo uma cor, uma estampa, uma lã mais quente; lembro daquele olhar de felicidade ao encontrar algo que parecia especial.
E eu lembro de uma jaqueta azul com preta, era forrada, quente e bonita; na minha visão de criança, parecia uma roupa de alguém com muitas condições, porque, naquela época, roupas assim pareciam distantes da nossa realidade. Aquela jaqueta ficou na minha memória.
Anos depois, tive a oportunidade de participar de um projeto de doação de roupas e agasalhos para pessoas em situação de rua. Ali, percebi novamente o quanto um pequeno gesto pode carregar um grande significado.
No inverno de 2026, em uma noite fria em Porto Alegre, caminhando pela rua, encontrei um casal tentando se proteger embaixo de um tapume. Eu tinha passado em uma fruteira e comprado algumas bananas, também tinha algumas balas comigo e pensei em entregar aquilo para eles.
Mas o que mais me marcou foi a atitude daquela mulher: ela olhou para mim e com muita gentileza, disse que se eu estivesse com frio, eu poderia ficar ali, que eles dividiriam o cobertor. Aquela cena ficou comigo porque mesmo em uma situação difícil, existia ali humanidade.
Existia acolhimento, existia alguém disposto a dividir aquilo que tinha. Naquele momento, lembrei da criança que um dia recebeu um agasalho através de uma doação. Percebi que uma roupa nunca é apenas uma roupa.

Ela pode carregar uma história, um gesto de amor e a mensagem de que ninguém deveria enfrentar o frio sozinho.
Neste inverno, talvez exista no nosso armário algo que não usamos mais mas que pode aquecer alguém: uma jaqueta, uma blusa, um cobertor. Para quem doa, pode parecer pouco, para quem recebe pode significar muito porque muitas vezes, aquilo que sobra para nós é exatamente aquilo que alguém está precisando.
E talvez a maior doação seja lembrar ao outro que existem formas de lembrar e amar.
Texto: Cassiano Pellenz