O desfile de A Nobreza do Amor, o retorno de Isabela Capeto e a consistência da Misci marcam uma temporada que reafirma a moda como linguagem
Há momentos em que a moda deixa de ser apenas imagem e se transforma em experiência sensorial quase um estado de presença. A última semana de moda no Rio de Janeiro foi exatamente isso: menos sobre tendências e mais sobre camadas invisíveis, aquelas que não se penduram em araras, mas habitam o corpo e a memória.
O que mais me marcou, como figurinista e artesã há mais de duas décadas, foi um desfile que se recusou a ser apenas desfile. Um gesto raro e necessário.
Com peças produzidas nos Estúdios Globo, o trabalho de Marie Salles, em diálogo com a caracterização de Auri Motta, revelou um mergulho profundo em referências históricas, culturais e estéticas de países da África e do Nordeste brasileiro dos anos 1920. Não como citação, mas como construção de mundo.
Sob direção de Igor Verde, o elenco de A Nobreza do Amor ocupou a passarela com uma presença pouco comum: Duda Santos, Ronald Sotto, Lázaro Ramos, Nicolas Prattes, Fabiana Karla, Hilton Cobra, Licínio Januário, Rodrigo Simas, Theresa Fonseca, Nikolly Fernandes e Zezé Motta.

Não eram modelos eram presenças, não
eram roupas eram estados de espírito materializados.
Pela primeira vez, vi um desfile de figurinos ocupar esse espaço com tamanha potência e isso para quem vive os bastidores da construção de personagens, tem um peso imenso.
A emoção veio porque reconheci ali algo que raramente ganha luz: o tempo. O tempo de escuta, de investigação, de tentativa e erro.
O tempo de entender que vestir alguém é antes de tudo, compreender suas camadas mais sutis. Um lembrete de que o figurino não é acessório é linguagem.

Outro momento que me tocou profundamente foi o retorno de Isabela Capeto. Depois de uma década, ela volta sem nostalgia. Há expansão.
O trabalho manual já característico, aparece mais refinado, quase íntimo. Cada detalhe carrega intenção, como se as mãos que costuram também estivessem narrando histórias.
E há uma camada nova, mais silenciosa e talvez por isso ainda mais potente, a parceria com a filha Chica Capeto. Existe uma herança que não se ensina, se vive! Uma construção que começa antes da palavra e se manifesta agora de forma madura na criação.
O desfile carregava essa energia rara, duas gerações que não competem mas se reconhecem.
E então claro um dos momentos mais comentados da temporada, a Misci de Airton Martin.
Mas reduzir o impacto ao burburinho seria pouco, o que se vê é um discurso cada vez mais consistente sobre Brasil sem caricatura, sem excesso. A marca avança na construção de identidade, território e pertencimento com uma sofisticação que se reflete tanto na forma quanto na narrativa.

Entre estrutura e fluidez, urbano e afetivo, surge uma leitura sensível sobre deslocamento sobre quem nos tornamos quando transitamos entre espaços.
Saio dessa semana de moda com a sensação de que ainda há espaço para profundidade. Que ainda existem criadores dispostos a ir além da superfície.

Fotosite/Marcelo Soubhia/@agfotosite)
E que o fazer na costura, na pesquisa, na construção de sentido continua sendo o que sustenta a moda que realmente permanece.
Porque no fim é isso que buscamos, não apenas ver mas sentir.
Edição e revisão: Isabel Kurrle