Um pai caminhava sozinho pela rua,era véspera do Dia dos Pais e talvez seja justamente nesses dias que a solidão fique mais barulhenta.Ele caminhava sem destino quando viu um menino subindo o morro de bicicleta.
Só que a bicicleta estava pesada demais e o menino desceu e começou a empurrá-la, o pai olhou, parou e teve uma sensação estranha.
Como se já conhecesse aquele menino, reconhecia.Esperou o menino se aproximar.
Eu posso te dar um abraço? o menino estranhou porque às vezes, quando você tem quinze, dezesseis anos, um homem de cinquenta anos já parece velho.
E aquele velho queria um abraço dele. O senhor está bem? o homem demorou um pouco para responder…talvez você não saiba quem eu sou mas eu sei muito bem quem você é!
O menino ficou quieto. O pai perguntou, você foi transplantado, não foi?
O menino assentiu, eu sou! e então aquele homem começou a chorar, não era um choro bonito, era um choro descontrolado.
O menino não sabia o que fazer, ainda não tinha idade para entender o que significa ser pai.
Muito menos o que significa perder um filho, eu só tive um filho, disse o homem, um só e ele morreu.
Ele respirou fundo e ficou em silêncio. Quando eu vi você… eu não sei explicar, foi como se alguma coisa dentro de mim reconhecesse você antes de eu te conhecer.
Ele tocou o próprio peito, sentiu um arrepio, uma vontade de chorar, uma solidão tão grande… e uma vontade de abraçar como se…o pai não conseguiu terminar.
O menino abriu os braços, aquele homem o abraçou.
E chorou, copiosamente como quem finalmente encontra, por alguns segundos, um lugar onde pode colocar a saudade.
Porque aquele menino carregava dentro do peito um pedaço do filho dele.Não era o seu filho.
Mas carregava alguma coisa dele, um coração que um dia pulsou dentro de um corpo que já não existia.
E talvez seja isso que um transplante tenha de mais extraordinário.A medicina salva um órgão mas além disto salva também muitas histórias.
Um coração passa de uma vida para outra e continua batendo.O menino se soltou do abraço.Pegou a bicicleta e continuou subindo porque a vida é assim.
A gente sobe, às vezes conseguimos pedalar, em outras ficamos cansados, descemos, empurramos a bicicleta e continuamos.
O pai ficou olhando, talvez aquele tenha sido o melhor Dia dos Pais da vida dele!
Não porque o filho tivesse voltado,ele não voltou.
Mas porque naquele dia, por alguns minutos, a ausência ganhou um rosto e um abraço.
Talvez muitos pais estejam sozinhos hoje, talvez existam filhos que não visitaram seus pais, filhos que ainda não conseguiram perdoar.
Pais que também não conseguiram pedir perdão, eu mesmo precisei ficar mais velho para entender algumas coisas sobre o meu pai.A gente demora para perceber que nossos pais também erram.Que tiveram e tem seus medos.

Que tiveram seus próprios vícios, suas próprias dores, suas próprias incapacidades.Alguns foram embora, alguns nunca voltaram.
Meu pai nunca saiu para comprar cigarro e desapareceu…ele sempre voltou.
Mas houve pais que não voltaram e há coisas que a gente nunca vai conseguir entender sobre as decisões dos outros.
Porque a escolha dos outros não está sob o nosso controle.O que está sob nosso controle é o que fazemos com aquilo que recebemos.Talvez seja esse o verdadeiro transplante. Receber uma vida que não foi perfeita…e decidir não repetir tudo aquilo que nos feriu.
Receber um coração novo não necessariamente dentro do peito mas dentro da existência.
A medicina já começa a criar novas possibilidades, até mesmo com órgãos produzidos em laboratório e tecnologias de impressão em três dimensões. Ainda há muito a ser descoberto mas talvez o maior órgão que precise ser transplantado seja outro, a nossa maneira de existir.
Feliz Dia dos Pais a todos!
Texto: Cassiano Pellenz