A favela venceu – e o cinema aplaudiu

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Na última coluna, falamos do Festival de Cannes e da emoção ao ver “Agente Secreto” sendo ovacionado de pé. Dias depois, os prêmios foram anunciados: Melhor Filme, Melhor Ator… mais uma vez a arte nos mostrando sua potência de atravessar fronteiras, idiomas, corações. Fiquei com a sensação de continuidade porque a arte é isso: fio que nos liga, espelho e farol. E foi inevitável lembrar de um tempo especial da minha vida, quando escolhi mergulhar de verdade na potência da arte que nasce nas favelas, mais especificamente no Vidigal, no Rio de Janeiro.

Em 2008, fui morar ali. Escolha consciente. Sentia que meu trabalho como figurinista só faria sentido se partisse da vivência, da escuta, da presença real. Tive a honra de conviver e aprender com o grupo Nós do Morro, que desde os anos 80 vem transformando vidas por meio do teatro e do audiovisual. Um coletivo que pulsa verdade, resistência e sonho. Um verdadeiro favo artístico dentro da cidade – onde cada célula vibra dedicação, talento e união, como uma colmeia onde a arte é alimento.

Ali, naquele casarão que vibra, o ar respira entrega. Sob a batuta generosa de Guti Fraga, um dos seres mais iluminados que já conheci, e de tantos professores e multiplicadores que atravessavam a cidade para dar aula na favela, vi o impossível acontecer com amor e raça. Era uma mistura bonita de favela e asfalto. Os professores vinham de outras companhias de teatro e davam o sangue para estar ali, porque sabiam que aquele lugar pulsava diferente.

Foi nesse contexto que assinei, pela primeira vez, o figurino de uma peça. Uma adaptação de O Auto da Compadecida, dirigida por Dado Amaral, com um elenco de talentos da própria comunidade. Foi mágico. Fizemos um cortejo pelas ladeiras do Vidigal, levando o teatro para as ruas, para os olhos dos moradores. A apresentação aconteceu ali mesmo, ao ar livre, num dos espetáculos mais marcantes da minha trajetória. E uma das grandes estrelas era Kizzi Vaz, que na época estava grávida e brilhou como a Compadecida. Minha querida Kizzi, minha amiga, minha memória viva daquele tempo intenso e transformador.

E não era só o palco que se iluminava: o Nós do Morro formava (e ainda forma!) técnicos de som, luz, câmera, contra-regras, figurinistas, cenógrafos, roteiristas. Como o maravilhoso Fabrício Santiago, que começou como ator e descobriu-se roteirista, criando personagens com alma e verdade. Era, e é, uma verdadeira fábrica de profissionais da arte de altíssimo nível.Naquela época, me doía ver tantos atores negros e periféricos sendo escalados apenas para papéis pejorativos, estereotipados, sem a chance de mostrar toda sua técnica, profundidade, sensibilidade. Mas resistimos. Eles resistiram. E furaram bolhas com talento, resiliência e esperança.

Nomes como Thiago MartinsRoberta RodriguesMicael Borges – todos filhos do Vidigal, começaram a ocupar espaços de destaque. Lembro de andar pelas ladeiras e ver improvisos acontecendo nas esquinas, ensaios fervilhando nos becos, gente metendo a mão para montar cenários, costurar figurinos, buscar luz, som, tudo na raça e na união. A verba era curta, mas a vontade era longa.De longe, segui acompanhando com orgulho cada conquista deles. Orgulho por ter vivido ali, por ter discutido, sonhado, defendido que oportunidades não podem ser restringidas pela cor da pele, e sim ampliadas pelo conhecimento e pela sensibilidade.

Thiago Martins.

E o tempo, ainda que tardio, trouxe justiça. Hoje vemos na TV o protagonismo preto ocupando seu lugar. A televisão e o cinema deixaram de ser de um tom só – estão mais coloridos, ensolarados, bronzeados. A gente se vê nas telas. A gente pertence. Na novela Renascer, por exemplo, três filhos do Nós do Morro brilharam: Renan MonteiroMarcelo Melo Jr. e Juan Paiva. Lindo demais ligar a TV e pensar: a favela venceu. E antes disso, tivemos o icônico Sabiá, de Jonathan Azevedo, que humanizou o traficante e virou símbolo de complexidade, emoção e carisma.

No cinema, nomes como Luciana Bezerra e Luciano Vidigal seguem firmes, dirigindo com maestria obras que retratam o cotidiano da favela com poesia e potência. Luciano, inclusive, fez história ao se tornar o primeiro diretor negro a ganhar o prêmio de Melhor Direção no Festival do Rio, um marco para o audiovisual brasileiro e um orgulho para todos nós. Filmes como A Festa de Léo e Kasa Branca seguem circulando por festivais no Brasil e no mundo, levando com eles o olhar sensível e real de quem conhece, vive e respeita esse território.Tantas histórias, tantos amigos, tantas trocas verdadeiras que eu poderia escrever umas dez colunas só sobre o que vivi ali. Sobre o que aprendi com cada um. Sobre como aquele lugar me ensinou a ver diferente, com mais empatia, mais coragem e mais amor.

Vida longa ao Vidigal, ao Nós do Morro, aos moradores que fazem a cidade acontecer com verdade e arte. Que sigam brilhando e inspirando! Eu, daqui, sigo aplaudindo emocionada.

A festa de Léo.

Com afeto,
Amanda Andressa, a figurinista.

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