Aprendemos xadrez com a professora Sandra na minha época de escola, se tornou um esporte.
O único jogo que baixei no celular, para nós era competição, descoberta e aquela ansiedade boa de saber quem seria o melhor.
Meu colega Jorge ganhou o campeonato meu azar foi pegar justamente ele na semifinal. Ele era muito bom enquanto eu ainda tentava entender o que fazer, ele já via o que aconteceria três lances depois.
Enxergava casas que eu nem sabia que existiam, naquele dia eu perdi a partida e não acreditei mas a vida continua. Só depois entendi que existe diferença entre estar em posição difícil e estar derrotado.
Quando criança a gente não sabe disso e às vezes, quando cresce, também não. Estudando arte, anos depois vi uma pintura que me trouxe de volta aquele tabuleiro, não era a mesma coisa mas é possível aprender. Um homem joga xadrez contra Mefistófeles, o Diabo.
Atrás dele, um anjo observa em silêncio, o quadro se chama Os Jogadores de Xadrez, do alemão Moritz Retzsch, de 1831.

A cena é simples, um homem, um demônio e um anjo. Uma alma em jogo, o homem parece derrotado. Mefistófeles parece já ter vencido e quem olha rápido comete o mesmo erro que cometemos na vida: acha que já acabou.
Diz a lenda que Paul Morphy, um dos maiores gênios do xadrez no século XIX, olhou para a posição da pintura e percebeu que não era xeque-mate. Ainda havia uma saída então, remontou a jogada da tela e venceu. Não dá para provar que aconteceu exatamente assim, Virou lenda.
Mas a ideia ficou, não era xeque-mate e é por isso que a pintura incomoda até hoje.Vivemos cercados de gente que decreta o fim antes da hora.
Que olha para alguém e diz: não vai conseguir! para um projeto: impossível.Para uma vida: não tem mais jeito e às vezes o adversário mais duro não está do outro lado do tabuleiro. Está dentro de nós.
É quando começamos a jogar contra nós mesmos. Passamos a contar só as peças perdidas, os erros.
E paramos de olhar o tabuleiro inteiro.Fausto, de Goethe, fala disso, um homem que acha que não tem mais nada a perder e aceita um pacto.
Mefistófeles é essa voz que tenta nos convencer de que já decidiram nosso destino mas xadrez não trabalha com certezas emocionais. Trabalha com posições e posições mudam, um peão esquecido avança ,um rei encurralado encontra uma casa, uma ameaça esconde outra e o jogo vira, é um jogo belo. No xadrez a gente nunca joga só contra o adversário.
Joga contra o medo, contra a pressa, contra a vontade de desistir e contra a tentação de achar que já sabe o resultado antes da próxima jogada. O anjo da pintura me chama a atenção por isso.
Ele não interfere, não move peça, não derruba o tabuleiro.
Ele só observa talvez porque algumas partidas precisem ser jogadas por nós. Outros podem nos amar, aconselhar, torcer e até enxergar uma saída que não vemos mas tem uma jogada que ninguém pode fazer em nosso lugar, a nossa!
Talvez seja por isso que a história do Morphy sobreviveu porque todos nós, em algum momento, precisamos de alguém que olhe para o nosso tabuleiro e diga espera…não é xeque-mate!

Existe uma diferença enorme entre não saber como vencer e não existir mais chance de vencer. A primeira é um problema, a segunda é uma sentença e a gente tem mania de transformar problema em sentença.
Por isso a pintura de Retzsch continua nos perguntando, quase duzentos anos depois: Você ainda está olhando para o tabuleiro? porque enquanto você estiver olhando, ainda não acabou.
O mundo pode ter anunciado sua derrota. O adversário pode estar sorrindo e ainda assim pode existir uma casa que ninguém viu.
Uma peça que ainda pode se mover talvez o que chamamos de fim seja só o momento em que precisamos parar de olhar para o que perdemos e começar a procurar a jogada.
Texto: Cassiano Pellenz
Fotos Crédito: Magnific