Vilões

PUBLICIDADE

Às vezes, ele aceitava: era o vilão na história de alguém.

Não um vilão de cinema, desses com trilha sonora e plano mirabolante mas o tipo comum, aquele que nasce nas versões mal contadas, nos julgamentos apressados nas palavras ditas por quem já decidiu não gostar.

Ele aprendeu cedo que quando a narrativa vem de um desafeto, ou de alguém que se apresenta como “gente de bem”, a verdade costuma chegar incompleta. E quase sempre é assim. Observava o mundo como quem tenta entender um enredo maior. Pensava em Batman e Coringa e em como, em Gotham City tudo parecia misturado demais para caber em rótulos simples, por que todos tem dois lados em si.

O herói carregava sombras. O vilão, feridas. E no meio disso, ele percebia: cada pessoa é um pouco da história que contam sobre ela, e muito daquilo que ninguém vê.Já tentara se explicar. Já quisera corrigir versões, alinhar fatos, desfazer mal-entendidos. Mas descobriu, com o tempo, que nem todo ouvido quer escutar e nem toda história quer ser revista, ou mudada.

Algumas pessoas preferem a versão que confirma o que já sentem.Lembrou-se de Ana Paula Renault, no Big Brother Brasil. Por um tempo, foi a vilã perfeita na cabeça de muitos, depois bastou que outros lados aparecessem para que a percepção mudasse.

Aquilo ficou com eles: não com o público e tem quem até agora não engoliu sua vitória. Não é que as histórias mentem, elas apenas mostram pedaços.Então passou a fazer algo diferente: seguiu.

Entendeu que há batalhas que desgastam mais do que ensinam e que a própria vida, com o tempo, se encarrega de reorganizar as versões.

De dar a cada um seu lugar ao sol. Ou não. A vida continuava sendo um sobe e desce. E em alguns capítulos, ele ainda era o vilão. Mas já não lutava contra isso como antes. Trabalhava, construía, mantinha-se fiel ao que acreditava, mesmo sem aplausos, mesmo sem compreensão.

Cada dia mais certo de sua missão, vilão e mocinho porque no fundo, ele sabia: o tempo é um narrador paciente.

E quando as histórias amadurecem, até os vilões ganham nuances e às vezes, deixam de ser vilões para se tornarem apenas humanos. Anti-heróis e até o maior dos heróis nem para mais e nem para menos.

Edição e revisão: Isabel Kurrle

Mais recentes

PUBLICIDADE

Veja Também

Rolar para cima